A velhice do tempo
Muita coisa deverá mudar nos próximos anos em
função da mobilização crescente das massas, cada vez mais conscientes de sua força
transformadora - lembremo-nos da queda do muro de Berlim - e pela própria natureza das
coisas. Nada é estático, o dinamismo faz parte da estrutura do Universo físico e
extrafísico, e só há uma coisa permanente no mundo: a mudança, como ensinava
Heráclito, o filósofo grego na Antigüidade.
Apesar de tudo, ainda temos muito a aprender e mais
ainda a fazer nesta fase de metamorfose planetária, quando a Terra deixa a categoria de
um planeta de evolução primária (expiação e provas, como ensina a Doutrina Espírita)
e eleva-se à condição de um mundo melhor, embora ainda muito imperfeito. Um mundo de
regeneração, segundo o Espiritismo. Isso implica uma necessária separação das
diversas categorias de Espíritos que vêm evoluindo neste planeta. Não será mais
possível a convivência daqueles que aproveitaram melhor as oportunidades de aprendizado
aqui, com os retardatários do progresso individual e coletivo que, de uma forma ou de
outra, encarnados ou não, prejudicam, atrapalham ou mesmo impedem, a evolução pacífica
dos demais.
Da Espiritualidade superior nos chegam notícias de que
somente os seres melhorados continuarão reencarnando aqui. Os demais serão encaminhados
para mundos compatíveis com sua condição moral-intelectual, de modo a serem úteis lá,
já que aqui representariam atraso e entraves à caminhada da maioria que já se cansou de
tantas guerras, doenças e sofrimentos de todo o tipo, como forma de progredir. Muitos já
compreendem que podemos progredir sem os arrancos da dor, apesar de que ela estará
presente ainda por muito tempo.
O século passado foi o mais violento da história
conhecida. Nele predominou, sem dúvida, o mal sob várias formas: tiranias, guerras,
doenças, fome, miséria, ódios de classe, raça e crença. Houve também um grande
progresso nas diversas áreas tecnológicas e científicas, embora sem o correspondente e
indispensável progresso ético-moral. Um progresso excludente, criando condições de
melhoria da vida material, mas somente para os que podem pagar por ela. Um século
paradoxal, típico dos períodos de transição. Nem sempre a desordem e o caos significam
o colapso irreversível de uma civilização. Sabemos que significam mudança iminente de
modelo de vida, cada vez mais com ingredientes novos, como maior participação popular
nas grandes decisões nacionais, o fim do nacionalismo exacerbado, das inúteis fronteiras
políticas (permanecerão as econômicas?), a reincorporação de princípios éticos ao
dia-a-dia das pessoas, a preocupação com o meio ambiente, a amenização ou cura de
doenças com a utilização de recursos terapêuticos alternativos para fugir da atual
medicina mercantilista e industrializada, que foge ao poder aquisitivo da maioria, e
muitas coisas mais, fazendo com que acreditemos no futuro da vida e na perfectibilidade do
homem.
Tem havido progresso na Terra - sem dúvida - apesar
dos reveses, dos avanços e retrocessos e esporádicos períodos de relativa estagnação.
Na verdade, o homem, recém-saído da fase animal, ainda não sabe ser completamente homem
e prefere brincar de deus (um exemplo é o caso dos transgênicos). Isso nos tem levado a
desastres econômicos, políticos e socioculturais, sempre de algum modo pedagógicos para
nossa espécie. Realmente, como ensina o Espiritismo, são os maus que ainda se
sobrepõem, prevalecendo de sua ousadia e força, muitas vezes apenas pela fraqueza dos
bons, que confundem mansidão com subserviência, humildade com servilismo, opção pela
paz com omissão.
Os tempos novos são - por si mesmos - uma convocação
geral para o trabalho de construção de uma vida melhor. Não esperar mais a ação de
governos e governantes porque, afinal, é fato que a administração pública de um modo
geral faliu. Pelo menos dentro do modelo tradicional. Cada um pode e deve fazer uma
pequena coisa em favor do próximo e do meio em que vive. A sociedade e a mãe-Terra
esperam a ação dos homens de boa vontade, em auxílio às leis que regem o Universo, num
trabalho de co-criação e manutenção da vida em boas condições onde existir, e a
criação dessas boas condições nas áreas onde elas ainda não chegaram, seja na
favela, na aldeia indígena, nos guetos urbanos e rurais...
O momento psicológico é favorável e, portanto, não
pode ser perdido. Os espíritas e espiritualistas em geral, podem e devem agir para tornar
a era do espírito hegemônica, possibilitando a substituição dos modelos desgastados,
esclerosados ou que não corresponderam ao que deles se esperava. É preciso criar e ousar
para que haja mudanças. O medo conduz à estagnação produzindo a dor que gera
movimento. Cada um certamente pode fazer alguma coisa. Uns na atividade intelectual, sem
cair na condição de teóricos de gabinete, outros na atuação prática, sem tornarem-se
avessos ao estudo, ao planejamento, caindo no emocionalismo doentio. Teoria e prática
são os dois lados de uma mesma moeda. Um não existe sem o outro, apesar do que dizem
alguns e do que pensam outros. Quem pensa age, pois o pensamento é energia construtora do
bem ou do mal; quem age cria e materializa o pensamento. Vamos, pois, ao "bom
combate".
- Paulo R. Santos (MG)