Ética da transgressão

   

Pode parecer estranho pensar em uma ética da transgressão, no entanto, sem ela haveria uma forte tendência à estagnação, tanto no campo individual quanto coletivo. Buda, 600 anos antes do Cristo, transgrediu ao deixar a realeza, cortar seus cabelos (símbolo do seu status social) e sair em busca de uma nova forma de viver e conviver. Legou-nos o princípio da compaixão por todos os seres como um valor essencial à vida.

 

Sócrates, o filósofo grego, também transgrediu lá pelo século V a.C. ao propor uma nova forma de viver através da busca incessante de si mesmo, do autoconhecimento que liberta da superstição e da ignorância. Jesus também transgrediu ao igualar servos e senhores, judeus e não judeus diante do mesmo Criador. Ele conversava com todo o tipo de gente, de prostitutas a cobradores de impostos, com romanos e samaritanos e a todos tratava com igualdade. Legou-nos uma proposta ético-social baseada no amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

 

A história está cheia de transgressores que alavancaram o progresso, abrindo mão de seu bem-estar em favor da humanidade. Generosos, sofreram com a calúnia e a difamação e pagaram até com a vida por suas transgressões que irrigam o pensamento humano até nossos dias, mantendo viva a esperança na construção de uma sociedade mais justa e melhor. Giordano Bruno e Galileu, e mais recentemente Gandhi e Luther King. Todos lutaram por ideais humanitários de igualdade e justiça para todos.

 

Recentemente a população de alguns países também transgrediu para obter avanços na esfera político-social. Os poloneses resistiram à ditadura de esquerda até que ela caísse pela perda total de legitimidade. Os chilenos derrubaram o ditador de direita, Augusto Pinochet, pela resistência pacífica e desobediência civil, levando seu governo também a perder a pretensa legitimidade de seu poder. Os sul-africanos livraram-se do apartheid que lhes foi imposto pelo racismo dos colonizadores europeus, aplicando a não violência inspirada na militância social e política de Gandhi e mantida viva por Nelson Mandela até a vitória.

 

É bem verdade que em todos esses casos a estratégia do não confronto com a força bruta, não evitou sofrimentos e mortes. Porém, os conflitos puderam ser paulatinamente solucionados por outras vias que não a guerra civil, e algum tipo de regime político, mais tolerante, se estabeleceu após a fase crítica.

 

Muitos pensadores têm analisado a sociedade em que vivemos, apontando suas falhas, propondo soluções e mudanças pelas vias do entendimento. O sociólogo alemão Max Weber analisou o Estado, a liderança, a burocracia e o poder político, aprofundou reflexões sobre as religiões e estudou o que veio a se chamar de ética da responsabilidade. Fez críticas ao modelo de racionalidade instrumental em vigência, que nos desumaniza e a todos coloca no que ele denominou “prisão de ferro”. Seu anti-intelectualismo e anti-academicismo foram o resultado das observações que fez. Percebeu que a democracia liberal-burguesa retirou a vitalidade e a espontaneidade da vida social através da burocracia, e que também a academia burocratiza o saber, mantendo o controle do conhecimento, do que é certo ou errado e, como conseqüência, do pensamento das pessoas.

 

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Uma das possíveis conceituações de Ética nos é dada pelo Dicionário Aurélio: “Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal.” Os gregos da Antiguidade talvez simplificassem isso para algo como a busca do bem viver e conviver. Ética e moral não são a mesma coisa, segundo o pensamento de muitos autores.   A moral seria a soma dos hábitos, tradições, leis e costumes que sustentam uma sociedade. Portanto, seria de caráter coletivo. A ética presume escolha voluntária de valores aos quais cada um se submete por vontade própria. A moral (dominante) nos é imposta, mas a ética é de livre escolha. Alguém pode ser punido por roubar, mas não se pode estabelecer por lei que uma pessoa seja honesta, pois tal valor – honestidade – é de foro íntimo.

 

“Jamais haverá um Estado realmente livre e esclarecido até que este venha a reconhecer o indivíduo como um poder mais alto e independente, do qual deriva todo o seu próprio poder e autoridade, e o trate da maneira adequada. Agrada-me imaginar um Estado que, afinal, possa permitir-se ser justo com todos os homens e tratar o indivíduo com respeito, como um seu semelhante; que consiga até mesmo não achar incompatível com sua própria paz o fato de uns poucos viverem à parte dele, sem intrometer-se com ele, sem serem abarcados por ele, e que cumpram todos os seus deveres como homens e cidadãos.”

(THOREAU, Henry D., A Desobediência Civil, Porto Alegre, L&PM Pocket, 1997, p.55).

 

Fala-se muito em ética na política. Parece-nos mais apropriado pensar em políticos éticos, isto é, homens cuja comprovada probidade na vida privada possa ser estendida à vida pública. Assim, evita-se que homens e mulheres com interesses pessoais cheguem ao poder para criticar o passado e projetar um futuro de promessas, mas sem fazer aquilo para o que foram eleitos: pensar o presente e legislar sobre ele, com honestidade e transparência.

 

A Globalização implodiu valores ético-sociais que mantinham a sociedade de alguma forma viva e ativa. O fenômeno da Globalização trouxe em sua esteira o receituário neoliberal que, além de estabelecer parâmetros de conduta baseados na ética do mercado, isto é, baseados na competição e no individualismo, deixou uma sensação de que não se pode fazer nada, que é o fim da história. Essa talvez seja a maior força do “globalitarismo”, neologismo criado pelo falecido professor Milton Santos, e que dissemina a sensação de impotência e indiferença que hoje se vê. A violência generalizada tem aí boa parte de suas causas.

 

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Chegamos a um momento em que, do ponto de vista cultural, o rompimento com a racionalidade e a ética centrada no mercado é inadiável e indispensável. É o momento de se procurar efetivar a globalização da consciência humana. “Trata-se da globalização da própria humanidade, compreendida como agrupamento planetário de pessoas, portanto, um agrupamento hipercomplexo, hipercentrado, hiperconsciente, coextensivo ao astro sobre o qual ele nasceu. A peculiaridade maior deste supercomplexo orgânico-social em formação é não ser um todo maciço. Ao contrário, seus componentes não devem perder sua personalidade singular ao coletivizar-se. O desenvolvimento humano só é possível porque cada um dos seus componentes é um ser pessoal e reflexivo.” (Leonardo Boff e Marcos Arruda. Globalização: Desafios socioeconômicos, éticos e educativos. Petrópolis, Vozes, 2001, p.45/46).

 

Se viver é conviver, os paradigmas dessa convivência deverão ser estabelecidos por uma revolução cultural que priorize o humano em lugar do mercado. Que restabeleça os valores do “ser” e que revitalize o mundo dos afetos, colocando a racionalidade instrumental em seu devido lugar.

 

Não será fácil inventar a sociedade que precisamos e queremos. Esta que aí está, por estar fundada em valores materiais, necessita de um ethos compatível para manter-se: o cinismo, o sadismo e as mentiras consentidas. Para a criação da república dos Espíritos será necessária uma renovação mental e comportamental já em curso por força das circunstâncias, mas que pode ser acelerada pela disseminação dos saberes que valorizem a vida humana, a natureza e nossa subjetividade espiritual. Romper com as regras de um jogo perigoso para a humanidade é assumir a ética da transgressão em seu melhor aspecto, sem parecer simplesmente um rebelde sem causa ou bandeira.

 

(Alinhado com o Tema da Abrade do ano 2006: Viver com Ética)

                                                                                    

-   Paulo R. Santos (MG)


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