Uma nova ordem política

 

Quem observa o mar de lama em que se converteu a vida pública no Brasil, com escândalos seguindo escândalos, não tem motivos para otimismo para com a política brasileira. Todo o ranço patrimonialista, arbitrário e cínico se mostra abertamente e homens de altos escalões se apresentam à nação envolvidos nos mais escabrosos casos de corrupção, nepotismo, descaso para com a coisa pública e, principalmente, vivendo uma espécie de delírio que os coloca em outros mundos. Os governantes e membros de escalões importantes falam como se vivessem em outro país. Não é por acaso que muitos se referem a Brasília como sendo um tipo de ilha da fantasia, onde vive um povo distante do resto do mundo e alheio às realidades que os cercam.

Há, sem dúvida, preocupações legítimas de políticos sérios que lançam mão dos recursos legais disponíveis, como as CPIs (Comissões Parlamentares de Inquérito), para fazerem vir à tona os desvios e tortuosidades do sistema, com seu homens envolvidos nos mais complicados episódios que vão do desvio de verbas públicas ao tráfico de influência. Mas, CPIs têm também e principalmente função política e a maioria, por isso mesmo, acaba numa enorme pizza requentada. No Brasil, pelo menos, os resultados de CPIs têm sido escassos em relação ao seu número e importância como mecanismo investigador da vida pública.

O problema em si não são os mecanismos de fiscalização, também distorcidos e desacreditados, mas o modelo político vigente, caduco e esclerosado e que encontra enormes entraves à sua modernização simplesmente porque alijaria do poder aqueles que lá se encontram há décadas. Os donos do poder não têm intenção real de fazer uma verdadeira reforma agrária, urbana, tributária, partidária, política e econômica no país, pois sabem muito bem que seus interesses seriam os primeiros a serem atingidos. Sem pressão da sociedade civil nada mudará. Aliás, alguém mais notou como muitos dos membros da triste era Collor estão de volta ao poder, num revezamento e alternância de cargos e funções muito característicos de países politicamente imaturos como o nosso?

Em verdade, enquanto não tivermos cidadãos mais conscientes e politizados não teremos governantes menos obtusos. Enquanto isso, a maioria dos espíritas permanece excessivamente preocupada com o movimento espírita e seus achaques, alheia às questões externas de interesse e largo alcance social. O país rola para o abismo da desordem e do caos, abrindo possibilidades reais para a explosão de distúrbios no campo e nas cidades e os governantes, embalados por seus delírios de poder, ludibriam a nação com as promessas, planos e projetos de sempre. Toda a esperança está sendo jogada para o segundo semestre, com a falácia da retomada do crescimento econômico, como se este não estivesse dependente de fatores externos e internos, fora do interesse e controle dos referidos donos do poder.

Mas o problema de se estabelecer uma nova ordem política não é exclusividade tupiniquim. Vemos que muitos países se vêem com problemas semelhantes. Principalmente nossos vizinhos latino-americanos. Fomos colônias de países então poderosos e continuamos colônias de interesses e de novos poderosos. Um exemplo do desarranjo das forças políticas mundiais é o evidente desequilíbrio de poder demonstrado pela arrogância dos Estados Unidos em assumir unilateralmente o papel de juiz e polícia do mundo. A ONU e demais órgãos internacionais para solução pacífica das divergências entre povos e nações é, na prática, mero figurante ou marionete dos interesses do G7 e de mais algumas megaempresas que controlam o capital e a política internacional. O caso dos bombardeios na Iugoslávia é sintomático. A ingerência da OTAN (entenda-se Estados Unidos) visa meramente interesses econômicos, militares e estratégicos e não humanitários, que são uma questão secundária no contexto geral.

Cada vez mais a população civil dos países em guerras convencionais ou não sofre com os desacertos do atual modelo político. São os mais pobres que sofrem cada vez mais e em maior número ao sabor dos interesses das oligarquias urbanas e rurais reinantes. O sofrimento e a dor foram banalizados, a vida humana vale muito pouco, o desinteresse e a apatia, a desesperança e a frustração paralisaram as forças de muitos que antes lutavam por dias melhores para o povo. A inoperância dos Governos e a demagogia, hipocrisia e cinismo dos governantes tiraram as forças de muitos outros. O problema é que o afastamento dessas forças de oposição abre cada vez mais espaço para os audaciosos e maliciosos que nada mais desejam que poder, dinheiro e status.

É lamentável que a comunidade espírita, em sua maioria, prefira permanecer alienada dos acontecimentos extra-muros dos centros espíritas, a viver também uma fantasia de que a Espiritualidade cuidará de tudo, num otimismo doentio, achando que ao entregar o caso aos "deuses" o assunto está encerrado. Exime-se assim de sua parcela de responsabilidade social para com a construção de um novo mundo e de uma nova sociedade, pecando por omissão ou negligência. Não basta ler e estudar a Doutrina Espírita, fazer pregações e discursos, ocupar-se com a reforma íntima (que pode converter-se numa forma sutil de egoísmo), fazer distribuição de cestas básicas e sopas semanais (que converte-se num mecanismo de manutenção da miséria), dando o peixe sem ensinar a pescar, escrever livros e artigos muitas vezes inócuos, esperando que as coisas mudem sem ações propositivas, isto é, que visem modificar a realidade do mundo em que vivemos. São coisas para se pensar e depois... agir. Que cada um faça o que estiver ao seu alcance, mesmo que seja (aparentemente) pouco, mas que faça, e que não exclua a ação política como uma das opções viáveis na construção de uma nova ordem política para o mundo.

- Paulo R. Santos (MG)

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