Doação de órgãos

 

A ciência e a tecnologia têm alcançado um desenvolvimento marcante neste século XX.
A medicina, em particular, vem operando verdadeiros "milagres" na arte de curar, minorar sofrimentos, erradicar endemias, salvar vidas.
Vive-se, hoje, a era dos transplantes, o que vem suscitando polêmicas de ordem legal, moral e religiosa quanto à questão de doação de órgãos.
Há poucos dias, fui interpelado por um familiar interessado em conhecer a posição do Espiritismo ante a problemática cessão de parte do próprio corpo em vida ou morto.
Não foi das melhores a escolha de minha pessoa para esclarecimento do controvertido tema tão em moda. Não tenho conhecimentos aprofundados que me autorizem falar em nome da Doutrina Espírita.
Dou, entretanto, a minha opinião, sem comprometimento da Doutrina.
Antes, porém, faz-se necessário mostrar, ainda que em leves pinceladas, o que é o Espiritismo.
A Doutrina dos Espíritos é um gigantesco monumento erguido sob a égide de Jesus e sustentado por três colossais pilares: CIÊNCIA, FILOSOFIA, RELIGIÃO.

Como Ciência, estuda e aplica as leis que regem o mundo material, o plano espiritual e a comunicabilidade entre os dois através da mediunidade. Sua essência está nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos, pesquisando os fenômenos paranormais por meio de métodos próprios e adequados ao que se propõe investigar.

Em seu aspecto filosófico, a doutrina examina o princípio e as causas e define o porquê das coisas, da vida, da morte, da reencarnação. Interpreta a natureza dos fenômenos da concepção do mundo e de toda a realidade em consonância com as novas descobertas científicas.

O seu conteúdo religioso, calcado na moral evangélica, é a revivescência do primitivo cristianismo: simples, puro, adogmático  é um repositório de fé e de esperança. Conforta, orienta, ilumina. É a conseqüência das conclusões filosóficas fundamentadas nas provas da sobrevivência humana após a morte.

O Espiritismo não é doutrina estanque e sim dinâmica, anda de braços dados com a ciência, acompanhando suas descobertas, suas conquistas, seus progressos; "É uma Doutrina de amor baseada no Evangelho e na Ciência" cujo lema "Fora da caridade não há salvação" dá-lhe uma conotação abrangente, fraterna, cristã.

Entendo, pois, que a doação de órgãos é um ato de amor, de desprendimento, de fraternidade e de caridade.

Mister se faz, contudo, que haja uma ampla divulgação e preparação psicológica, espiritual e religiosa do futuro doador para que, em seu novo estado de desencarnado, seu espírito não venha experimentar as sensações de mutilação.

Devidamente conscientizado, ao despertar no outro lado da vida, após o decesso físico, o Espírito de um doador de órgãos sentir-se-á feliz em saber que suas córneas, que inevitavelmente seriam tragadas pelos vermes na sepultura, hoje dão a oportunidade da visão a irmãos que tateavam na escuridão, atormentados pela cegueira. Regozijar-se-á ao sentir que o seu coração agora palpita em outro peito proporcionando novas perspectivas a quem sofria de males cardíacos. Alegrar-se-á, sem dúvida, em constatar que seus rins, ora transplantados, livram outras pessoas das incômodas hemodiálises assegurando-lhes uma vida normal.

No meu entendimento, e é uma opinião muito  íntima, doar-se de corpo e alma, em vida ou depois de falecido, em benefício do próximo é ser cristão, é ser abençoado discípulo de Jesus. Um espírita sincero e consciente não terá escrúpulo de ceder ao seu semelhante os órgãos que um dia voltarão ao pó da terra.

- Felinto Elízio Duarte Campelo (AL)

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