Um dia de luta pela paz
Seis mil anos de história já se passaram. Seis milênios de caminhada evolutiva tendo meios de comunicação cada vez mais sofisticados, e mesmo assim o ser humano vem atrofiando sua capacidade de inter-relação, se considerarmos que junto com a evolução técnica e científica, evoluímos também na capacidade destrutiva.
Não se trata apenas de relembrar impérios militares que ruíram ou de civilizações teocráticas que deixaram marcas de elevação, mas também de sangue ao longo dos séculos. É a própria condição humana que se põe sob o olhar da crítica para ver que fechamos o século XX - sem dúvida o mais sangrento da história humana na Terra - cansados de tanta violência e dor.
O século XXI foi inaugurado ainda sob os auspícios da guerra. Guerras chamadas de preventivas, demonstrando claramente a postura paranóica que assumimos diante dos demais seres da criação. A Globalização, enquanto processo histórico iniciado com as grandes navegações do século XVI, concluiu-se no final do século recém-findo, mostrando um ser humano carente e confuso diante da parafernália eletrônica, e também da miséria crescente e da dor mais profunda devido às constantes mudanças e incertezas.
O ser humano, entretanto, parece estar mudando. A revanche do mundo sagrado contra a cultura profana, elevada ao nível do sagrado pelo culto ao dinheiro e ao bem-estar pessoal, parece estar enfraquecendo e a as pessoas buscam formas alternativas de viver. As ditaduras cansaram e a neurose do lucro adoece multidões. Com isso os templos de todas as crenças são buscados como sucedâneo dos prazeres de antes por essas multidões em crise.
O surgimento das terceiras vias de ação, gerado pela organização da própria sociedade civil, parece sinalizar mudanças definitivas na vida social. Vem à lembrança a frase contundente de um filósofo meio fora de moda, Karl Marx, sobre o fato de ser a violência as dores do parto de uma civilização grávida de outra.
Cabe pensar agora, nessa época de dúvidas e dores coletivas, a quem cabe a construção dessa nova civilização, por meio da renovação da atual sociedade corroída em seus alicerces, já que o homo tecnologicus não é nem melhor nem mais feliz.
O dia 1º de janeiro, aceito como o dia da confraternização universal, pode tornar-se um dia de luta pela paz, mas sem o uso de métodos violentos. Aprender a ver o outro como um parceiro e não como um adversário ou mesmo como um inimigo em potencial, não será tarefa fácil, mas é indispensável. A cultura da morte e da violência divulgada pela mídia inconseqüente vai na contramão desse propósito dificultando as coisas.
Desenvolver a capacidade da tolerância sem conivência, do respeito sem subserviência, impedir a banalização de uma cidadania nascente, substituir a democracia dos direitos pela democracia dos deveres, são apenas algumas metas a serem atingidas no longo prazo, a partir de um primeiro passo dado em qualquer momento de nossas vidas.
- Paulo R. Santos (MG)