Políticos - porque sempre os mesmos

 

Muitos se perguntam por que entra ano e sai ano, vem eleição e vai eleição, e os políticos eleitos são sempre os mesmos desde os idos da quartelada de 31/03/64, equivocadamente chamada de revolução. Qualquer observador mais atento vê que, principalmente nos altos escalões do Governo, Senado, Ministérios, postos ligados ao Judiciário e à polícia federal, por exemplo, estão sempre sendo ocupados por aqueles mesmos que sempre deram e dão sustentação a um modelo de governo conservador, para não dizer retrógrado.

A resposta para isso está na própria história do Brasil. Desde seu "achamento", oficialmente datado de 22 de abril de 1500, embora haja fortes indícios de que portugueses outros já habitassem o país e a certeza dele já ser do conhecimento dos espanhóis, por exemplo. O mercantilismo da época havia criado uma mentalidade predatória e não havia a menor preocupação com os povos e regiões colonizados por portugueses e espanhóis, potências da época, no sentido de se preservar qualquer coisa. A idéia de se acumular jóias, materiais e metais preciosos era a motivação básica das aventuras pelo mar e para as guerras em terra, ocasionadas p. ex., pela Inglaterra e França.

No caso do Brasil, Portugal só tomou providências no sentido de colonizar as terras d’além mar quando percebeu que franceses, ingleses e principalmente holandeses tinham se decidido a ocupar as novas terras. Por esses tempos houve o primeiro grave erro na ocupação do Brasil: a sua divisão em capitanias hereditárias, coisa que se perpetuaria pelos séculos, trazendo problemas graves até hoje. O MST é uma ponta do problema criado então. O rei de Portugal da época resolveu seu problema enviando para o novo mundo uma leva de nobres desocupados e perdulários e criou um problema para nós que perdura até hoje.

Pois bem, prezado leitor e leitora, ao longo dos séculos, com tudo de negativo que houve em nossa terra, tais como a matança dos índios, a depredação da Natureza, a espoliação dos nativos, a escravidão negra, a política feita à distância dos interessados (Brasília, lá no planalto central será uma ironia da História?), o desinteresse pelas questões locais, regionais e principalmente sociais, foram formando o nosso fundo cultural, reforçado pelo paternalismo coronelista, pelo jesuitismo, pela militarização do poder político e outros fatores mais que seria enfadonho listar no curto espaço de um artigo.

Mas, o mais grave de nossos problemas em nossa cultura política foi a criação de uma elite (uma nobreza atualizada nos padrões do século XX) pró-imperialista por tradição e vocação, simplesmente porque não sabe viver sem a tutela de uma metrópole, seja ela Portugal, no passado, ou Estados Unidos, no presente. Uma elite composta por um número relativamente pequeno de famílias, em relação à população brasileira total, hoje em torno de 160 milhões de pessoas. Essas famílias açambarcaram não só o poder político que lhes veio de geração em geração, como também o econômico, após a quartelada de novembro/1889 que derrubou o Imperador D. Pedro II.

Em meio a tudo isso, vive uma população sem saúde, sem educação, sem direitos reais, sem renda, sem garantias mínimas de sobrevivência e sedada continuamente por uma mídia muito bem controlada pelos donos do poder que usam desde o futebol até os programas de entretenimento (=sedação coletiva) dos fins-de- semana. O noticiário sofre filtragens de acordo com os interesses do políticos (donos das emissoras) e burocratas do momento; os economistas fazem mil prognósticos que neurotizam o leigo e o letrado, deixando ambos emocionalmente vulneráveis a qualquer investida que o Governo faça nos impostos, taxas e tarifas, tudo em nome de um progresso (no conceito burguês, ou seja, aquisição de bens) ou de um "desenvolvimento sustentado" (em quê?), sempre jogado para um futuro que nunca chega.

Uma população divida entre os famintos, cujos grilhões na barriga não lhes deixa tempo para pensar em política, e uma outra parte com os grilhões nas mentes, sem espírito crítico para analisar e entender o que lhes ocorre em volta, fica fácil a prática do revezamento político, considerando que a população amedrontada continuará votando sempre nos mesmos, com medo de que qualquer mudança implique piora nas condições de vida, se é que isso é possível. Mas só haverá mudança quando o povo a desejar e lutar por ela. Enquanto isso... jatinho prá lá, jatinho prá cá, viagens às custas do contribuinte, bancos com lucros acima de 150% em tempos de crise (haverá realmente uma crise?). Por onde anda o resultado do esforço social do nono PIB do mundo? O que está acontecendo com a safra recorde de 85 milhões de toneladas de grãos (e a população faminta ou pagando caro por alimentos básicos)?

E os espíritas? Os espíritas seguem com os demais porque é sempre mais cômodo estar com a maioria, mesmo que alienada. Ou dizem ser o carma dos brasileiros, ou vivem embalados pelos sonhos do Brasil, coração do mundo, pátria do Evangelho. Poderá ser, o fizermos assim. Por enquanto não há nada a comemorar nesses 500 anos de "descobrimento" (?). A não ser a espoliação, a dominação, a destruição da Natureza, a miséria e a fome de um povo acostumado a viver de esperança e treinado para manter no poder sempre os mesmos, ad infinitum.

-   Paulo R. Santos (MG)

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