Magos e profetas

 

Estamos todos acompanhando com ou sem prazer a virada do século (e do milênio) que já não está longe: janeiro de 2001; e não faltam os fenômenos típicos dessas ocasiões. Quem se der ao trabalho de consultar algum livro de história verá que fim de século e, principalmente, de milênio traz consigo um pensamento mágico, uma mudança de comportamento que se generaliza devido ao processo de contágio, digamos assim, entre as pessoas que imaginam que a contagem humana do tempo terá algum efeito sobre os ciclos e ritmos da natureza e da vida.

A questão básica é que não estamos distantes de nossa fase evolutiva animal. Ainda há uns escassos 10.000 anos formávamos as primeiras aldeias, dando início ao pastoreio e a agricultura. Faz pouco tempo que criamos cidades e apesar da rápida evolução a partir daí, trazemos arraigados no mais íntimo de nosso ser, sentimentos ancestrais que explodem nesses momentos de transição e crise, quando valores e costumes, tradição e religiosidade, ética e normas de relação vão para a lata de lixo, em nome de uma discutível modernidade. A questão é que a história tem fluxos e refluxos e vivemos um momento de retração histórica, promovida pelo individualismo e pela supervalorização do econômico sobre os demais interesses do homem.

Portanto, nada mais natural que numa época dessas surja toda sorte de esquisitices e extravagâncias, algumas extremamente perigosas e perniciosas, como determinadas seitas e costumes. Em meio a isso aparecem magos, profetas, numerólogos, tarólogos, cartomantes, futurólogos enfim, sedentos por controlar de alguma forma a vida que flui descontrolada, seja a própria ou a dos outros. A insegurança coletiva favorece o milenarismo e o messianismo e quanto mais esdrúxula a seita, filosofia ou nova maneira de se viver, mais encontra adeptos. Gente pouco informada, indefesa ou insegura diante das inúmeras dificuldades da vida atual, propiciando a exploração da boa fé que enriquece alguns pela dor dos outros.

O mais curioso é que perde-se o sentido do equilíbrio e do bom senso. Tais pessoas que se dizem capazes de prever o futuro e inclusive de exercer algum poder sobre ele no sentido de alterá-lo dentro dos interesses do "cliente", passam a ser consultadas sobre assuntos para os quais não têm, em geral, a menor condição de opinar. Vemos repórteres entrevistando tarólogos sobre a economia mundial, ou cartomantes sobre a inflação e a política do país, e os assuntos se desdobram para especular sobre personalidades famosas. Jogam no ar profecias e previsões que cabem perfeitamente no quadro geral dos acontecimentos de nosso tempo. E ninguém parece se dar conta do ridículo dessa situação. De certo modo isso é compreensível num país onde basta ser técnico de futebol para virar professor, onde músicos fazem previsões sobre a economia dos próximos meses, desportistas falam com desenvoltura sobre política cambial etc. Ressalvado o direito de opinião, convenhamos que cada macaco deve ficar no seu galho, como se diz popularmente, embora sempre haja macacos freqüentando galhos alheios.

Nunca se vendeu e se vende tantos artigos esotéricos. Nunca se escreveu tanto e tão superficialmente sobre as coisas da alma. O mercantilismo ganancioso contamina até mesmo os mais bem intencionados levando gente idealista para os caminhos de práticas no mínimo curiosas, como os verdadeiros cultos aos anjos, gnomos, etc. Sem entrar no mérito da existência ou não de tais seres, o certo é que as coisas acontecem dentro do modelo político-econômico vigente, funcionando como válvula de escape para as angústias de todos e de cada um. De um modo ou de outro a magia e o encantamento passam a fazer parte de nosso dia-a-dia e os atavismos aparecem e transparecem do vestir ao falar.

O perigo (e a necessidade) dessas transições está na perda dos vínculos com a memória social, com os laços sociais e familiares, com o próprio passado e faltam, ademais, o suporte da tradição e dos costumes, que de um modo geral sustentam psicologicamente o indivíduo, pois lhe dão e definem um espaço e um papel na sociedade em que vive. Essa situação é que engendra as condições para o surgimento dos magos e profetas de toda ordem, doentes da alma em sua maioria, cegos guiando cegos a caminho do mesmo abismo.

Vivemos tempos difíceis que exigem cautela nas escolhas e moderação nas aspirações. Os falsos cristos e falsos profetas estão por aí criando a confusão prevista por Jesus no capítulo 24 do Evangelho de Mateus. Ainda assim, ninguém tem o direito de acomodar-se e deixar o circo queimar. Cada cidadão pode e deve fazer algo em benefício de sua comunidade. Não devemos esperar muito dos políticos, pois a prática política deteriorou-se até chegar a um nível irrecuperável. Só um novo modelo de cidadão poderá criar lentamente um novo modelo político. A atuação coletiva, o associativismo, as ONGs e a pressão da parte honesta da imprensa são as formas possíveis de se mudar os rumos da atual situação no Brasil e em outras partes do mundo, criando uma sociedade melhor. Ela será construída por nós mesmos. Que ninguém espere que os imortais da vida superior cuidem da taxa de juros, do controle do dólar, do preço das ações, do custo Brasil ou da safra agrícola da próxima estação. Nem mesmo da mudança de comportamento dos dirigentes, do fim das guerras, da fome e da miséria, do desemprego e da doença, do analfabetismo e da desesperança. Esses assuntos são nossos. Podemos e devemos resolvê-los... com a ajuda dos imortais e sem a necessidade dos magos e profetas de ocasião.

- Paulo R. Santos (MG)

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