Espiritismo e Iluminismo
A herança intelectual da Europa para a humanidade é amplamente conhecida nas diferentes áreas do conhecimento ( filosofia, arte, ciências naturais, sociais, tecnologias, etc.) bem como nos vários domínios da ação social (ética, política, econômica, revolucionária, histórica, etc.). O velho mundo, sua cultura multissecular, suas matrizes religiosas, seus modelos político-sociais, encontra-se espalhado por todo o planeta, particularmente neste início de século XXI, quando a globalização vai tornando triunfante a civilização que nasceu na Europa ocidental moderna.
Deste legado Europeu para a cultura planetária, destaca-se a influência
do Iluminismo, o qual encontramos sua presença na contemporaneidade, suas marcas
históricas em diferentes instituições e padrões de comportamento político,
econômico, cultural, social e científico. O estado nação, a
imprensa, o mercado, a ciência moderna, a
democracia representativa, a cultura secular, o
expansionismo econômico, a indústria, o equilíbrio dos
três poderes, o declínio da religião, a razão
histórica, o progresso, o contrato social, a
superação do pensamento tradicional, são algumas das invenções culturais
do Iluminismo.
Como se vê, a nossa época, a sociedade em que vivemos, continua sendo
influenciada pelos ideais iluministas: o sentido social de pertencimento, a identidade
cultural que partilhamos com os demais membros da comunidade, ainda são constituídos por
influência da nacionalidade que nos abriga; a imprensa, tornada possível pela
reprodução tipográfica de Gutemberg, foi a principal responsável pela criação da
esfera pública burguesa, este espaço democrático de livre intercâmbio de
informações e troca de mercadorias; o mercado e o comportamento econômico típicos da
sociedade mundial, expansionista, integrada, interdependente, hegemônica, são aspectos
que tem origem nos ideais do Pensamento Iluminista; a crise do pensamento religioso, sua
precária legitimidade nas modernas sociedades de consumo, remete ao processo de
racionalização da vida social promovido pela ciência e técnica hodiernas; a
necessidade política da divisão, autonomia e equilíbrio dos três poderes (legislativo,
executivo e judiciário) como fator de manutenção do regime democrático, faz-nos voltar
às páginas de LEsprit des lois do Barão de Montesquieu(1950), este
precursor iluminista da ciência política contemporânea; o caráter secular do
pensamento (a laicização da cultura), segundo os Iluministas, uma etapa necessária ao
progresso da humanidade; finalmente, a descoberta da razão histórica
(leis da história que controlam o devenir) que nos levaria ao desenvolvimento
econômico, social, político e individual, à plena realização da natureza
humana, da sua racionalidade, do seu progresso intelectual.
Pelo visto a influência do Iluminismo sobre o mundo contemporâneo pode
ser encontrada nos vários domínios da vida social. Nós os cidadãos das sociedades
democráticas, com seus parlamentos, seu estado de direito, sua economia de mercado, com o
incrível avanço tecnológico que logramos, somos herdeiros dos chamados filósofos das
luzes.
Neste ponto, cabe lembrar que Filósofos sociais como Voltaire,
Montesquieu, Diderot, Rousseau(1995), Locke, Beccaria, desenvolveram os princípios
ético-políticos da organização social democrática, os quais serviram de base para as
lutas que deflagaram a Revolução francesa (1789). Sendo esta uma revolução tipicamente
de classe na qual a Burguesia soube mobilizar as outras classes sociais (camponeses,
proletários urbanos, nobres insatisfeitos, intelectuais, etc.) em favor de seus objetivos
e com o intuito de derrubar o Ancien regime, a sociedade do arbítrio,
dominada pela desigualdade política, pelo despotismo e pela tradição.
Neste sentido, a experiência social da modernidade fundada em
pressupostos democráticos de igualdade, reciprocidade de direitos e deveres dos cidadãos
perante a lei, liberdade econômica para empreender e gerir negócios, possibilidade de
desenvolver habilidades técnicas no sentido do progresso individual e social, são
desdobramentos políticos-sociais trazidos pela revolução francesa, e que tiveram sua
origem nas concepções ideológicas do Iluminismo.
Se por um lado é possível associar a herança cultural do Iluminismo ao
progresso econômico e social, às liberdades políticas e conquistas democráticas, ao
estado de direito, às luzes da razão e da técnica, ao declínio da concepção medieval
do mundo, (geocêntrica, teocêntrica, clerical, arbitrária), por outro é necessário
reconhecer o caráter secular (desencantamento do mundo-universo como
máquina) da herança intelectual do Iluminismo.
Em outras palavras, a racionalização da visão de mundo européia que
surge com o trabalho intelectual de Iluministas como René Descartes, Francis Bacon,
Galileu, Kepler, Newton, promoveu uma cultura baseada na secularização da
consciência, na geometrização do espaço e no mecanicismo
científico. Estes aspectos da herança iluminista refletem o rompimento com a
Ideologia religiosa dominante e por decorrência a formação daquilo que foi celebrizado
e mitificado na modernidade como sendo a autonomia da razão, as luzes
da razão, uma concepção mecanicista, materialista e desencantada do mundo, da
vida e do universo.
Trata-se do esvaziamento da alma do mundo, da sua explicação por razões
estritamente materiais, onde a matéria explica a matéria e o universo é
unidimensional.
Assim, a ciência moderna esta filha legítima do Iluminismo nasce do
trabalho científico de Galileu, da aplicação do cálculo aos fenômenos astronômicos e
da física clássica desenvolvida pelo físico inglês Isac Newton. A partir deste
modelo do universo regido por leis matemáticas é estabelecido o materialismo
científico, a ciência objetivista e linear.
As principais teorias e concepções científicas do século XIX, o
Positivismo, o Evolucionismo, o Marxismo, tiveram a marca do legado Iluminista, ao mesmo
tempo progressista, racionalista e experimental. A Imagem do mundo projetada por
esta cultura científica não contemplava a possibilidade de qualquer realidade fora do
domínio material, ou seja, a matéria objetiva era a
única dimensão que poderia ser explicada através do experimento em
laboratório, da verificabilidade racional das causas dos fenômenos naturais, do controle
de suas variáveis por meio do cálculo, da comprovação das leis que regem os fenômenos
naturais, físicos, biológicos ou sociais.
Nesse contexto do século das luzes, na França onde o Iluminismo assumiu
sua feição intelectual mais vigorosa, o Espiritismo é elaborado pelo
iluminista-romântico Allan Kardec. No Caráter da revelação Espírita,
verdadeiro tratado de epistemologia do Espiritismo, Kardec define a natureza deste
último: É, pois, rigorosamente exato dizer-se que o Espiritismo é uma ciência de
observação e não produto da imaginação. As ciências só fizeram progressos
importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental; até então,
acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria, ao passo que o é
também às coisas metafísicas.(Kardec, 1990:20)
Pelo que se observa neste trecho do I Cap. do livro La Genèse, Les
Miracles Et Les Prédictions Selon Le Spiritisme, publicado em Paris aos 6 de
janeiro de 1868, torna-se evidente a herança intelectual Iluminista do Espiritismo. Na
segunda metade do século XIX- período do trabalho intelectual-espírita de Allan Kardec
(1854 a1869)- já era do domínio científico as principais noções, metodologias e
conceitos que foram trazidos pelo Iluminismo: A Teoria do Progresso da Natureza humana, a
Racionalidade e a Experimentação como métodos da Ciência, a racionalização da vida
social, a noção de Leis universais que regem o desenvolvimento da humanidade,
evolucionismo biológico, as noções de contrato social, educação racional, legalismo e
estado de direito, justiça social, direitos individuais e outras.
Conforme visto acima, Allan Kardec não apenas reconhecia o papel
fundamental do método positivo no avanço e
consolidação da ciência moderna, como também desenvolveu procedimentos para empregar
tal método em seus estudos dos fenômenos espíritas. Vivendo à época da ciência
positiva, contemporâneo de Augusto Comte, Allan Kardec soube, submeter à observação,
os fatos espíritas objetivos, à comparação, os dados e informações espirituais,
aplicar o princípio classificatório na escala espírita, encontrar a causalidade
racional dos fenômenos mediúnicos através de estudo rigoroso das suas várias
hipóteses de explicação, manter os conceitos espíritas na racionalização lógica e
coerente.
Observando o aspecto metodológico do trabalho investigativo de Allan
Kardec é possível constatar a significativa influência das principais vertentes do
pensamento Iluminista (Racionalismo, Emperimentalismo, Evolucionismo) sobre o Espiritismo.
Todavia, não apenas no método de elaboração o Espiritismo é herdeiro
do Pensamento Iluminista, o é também em toda a Teoria Espírita. No Livro dos
Espíritos, obra que contém a formulação da Codificação Kardeciana resumida em
capítulos, encontramos a sua parte terceira dedicada exclusivamente às Leis
morais, todas elas concebidas, estudadas,
utilizadas e defendidas pelo Iluminismo. Pensadores como Rousseau no seu O Contrato
Social, Montesquieu em O Espírito das Leis, Maquiavel(1995) em O
Príncipe, Descartes em O Discurso do método, Voltaire, Diderot, e
muitos outros Iluministas escreveram sobre as Leis
históricas do devenir, Leis da sociedade, Lei do Progresso, de Igualdade, de
Liberdade, de Justiça e outras.
A noção de Leis da História, do desenvolvimento da humanidade, do aperfeiçoamento racional da natureza humana, do progresso da sociedade, foram idéias fundamentais ao pensamento e práxis do movimento intelectual e político das Luzes. A Visão que o Espiritismo proporciona da evolução da humanidade é, neste sentido das leis, Iluminista, uma abordagem não teológica do progresso, que rompe com a idéia da suposta intervenção constante e pessoal de Deus na História.
Ao contrário disso, o Espiritismo assume uma feição naturalista, isto é, concebe a evolução da vida e da humanidade por meio de Leis naturais, entre elas a Reencarnação e a Influência recíproca dos diferentes planos da vida. A Teologia conheceu a sua maior crise na modernidade exatamente porque ignorava as Leis naturais, todas elas divinas e progressivamente conhecidas pela humanidade.
Portanto, o caráter iluminista do Espiritismo aparece no seu método, na sua compreensão da transformação da sociedade através da mudança do nível de consciência e da irresistível força do progresso (moral, social, antropológico) bem como no conhecimento racional das leis espirituais, sua aplicação no campo psicológico, das crenças, dos usos sociais, das instituições e dos valores econômicos, políticos e culturais.
Em verdade, Allan Kardec, respirando o clima cultural da França do século das luzes, soube transcendê-lo. Trabalhando com um modelo epistemológico que estava a frente de seu tempo, Kardec desenvolveu no diálogo com os espíritos, uma racionalidade aberta, complexa, integrada, que reunia interpretações filosóficas, dados objetivos da ciência de sua época, relatos etnográficos dos espíritos, empatia espiritual e a vivência de uma consciência religiosa autêntica e profunda.
Enquanto o modelo da ciência positiva instaurou o império da razão objetiva, unidimensional e mecanicista, passando a considerar todo o conhecimento religioso um fóssil do passado, Allan Kardec no intercâmbio com os mortos descobrira formas de vida e matéria em outras freqüências e planos. Deste diálogo com o desconhecido, foi possível desfazer o aparente abismo da transcendência.
Dessa forma, Allan Kardec com sua infidelidade ao paradigma cientificista da sua época, soube construir uma nova ciência, uma nova linguagem, que em muito superou os condicionamentos da ciência newton-cartesiana. Afinal, descrever formas de matéria cujo grau de eterização rompia com a física corpuscular de Newton, em pleno século XIX, significou avançar na direção de uma Concepção Quântica do Universo.
Sendo
assim, o Espiritismo é por um lado Iluminista em seu conhecimento racional das leis que
regem a evolução bio-psico-sócio-espiritual do gênero humano e por outro é herdeiro
da Tradição filosófica do Romantismo, reencantando o mundo com os valores espirituais,
com o Amor e a fraternidade universais, com o significado profundo de cada nível
evolutivo, em cada reencarnação, em cada ser, em toda individualidade, em diferentes
esferas e manifestações da vida, na grande teia do universo que não é outra coisa
senão o pensamento de Deus.
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- Denizard de Souza
(DF)
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