Kardec, o livro dos espíritos e o movimento espírita

 

Kardec, após alguns anos de estudo, publicava no dia 19 de abril de 1857, a primeira edição de O Livro dos Espíritos (LE) contendo 550 perguntas. Esta primeira edição de LE foi lançada no formato in-4, onde a pergunta fica em uma coluna e a resposta em outra, como no exemplo abaixo:

1 . Que é Deus?  "Deus é a Causa Primária de Todas as Coisas".

No dia do lançamento (relatado por Canuto Abreu no seu livro: "O Livro dos Espíritos e suas Tradições Históricas e Lendárias”), os exemplares editados para aquele dia, foram logo esgotados. Acontece que na Europa como um todo era, a comunicabilidade com os mortos, uma práxis comum nas reuniões sociais, mas tratada de maneira frívola. Então, todo artigo ou livro que tratasse do assunto, era bastante procurado, dado o interesse das pessoas em saber do que se tratava.

O LE foi todo escrito mediunicamente, através do fenômeno da "Cesta de Bico". Neste fenômeno, o os médiuns punham suas mãos nas bordas de uma cesta com rodas e através da doação do fluido magnético (ectoplasma) fornecido, os espíritos manipulavam a cesta fazendo-a movimentar-se. Acontece que esta cesta era provida de um lápis na ponta e o movimento propiciava a escrita uma letra ou de uma frase.

Como podemos concluir, este tipo de fenômeno era muito lento e desgastante para o médium. Logo, Kardec sentiu a necessidade de migrar para um novo estilo de comunicação e através de suas pesquisas, Kardec e os médiuns a sua disposição, descobriram o mecanismo da psicografia, que consistia na influencia do espírito sobre o médium, controlando determinadas zonas cerebrais através do perispírito, para que pudesse controlar a sua mão e reproduzir a escrita manual.

Médiuns como Julie e Caterine Baudin, Ermance Dufaux (que psicografou o livro : "A Vida de Joana D'Arc ") produziram os fenômenos acima citados e foram arduamente pesquisadas por Allan Kardec. A família Baudin [1] é dos marcos do movimento espírita, que até hoje é esquecida pelos espíritas. Sem a contribuição desta família, dificilmente Kardec conseguiria expandir a obra espírita.

A maioria dos Espíritas pensa que Kardec criou sozinho as primeiras perguntas de o LE, no entanto os três principais biógrafos de Kardec (Henri Sausse, Zeus Wantuil e Ann Blackwell) são unânimes em dizer que apesar de Kardec ter estruturado boa parte de o LE, a idéia de um livro de perguntas e respostas, bem como algumas perguntas foram oriundas de 50 cadernos fornecidos por um grupo de maçons (Sr. Sardou, Sr. Didiê e seu filho, Sr. Tiedman), que eram confrades dele e que já realizavam pesquisas a algum tempo.

Kardec foi interpelado por estes seus amigos, que não conseguiam ver a dimensão do trabalho que realizaram e então, entregaram os manuscritos a Kardec que verificou ali a grande possibilidade de divulgação de princípios até então destinados a uma minoria de pessoas.

Zeus Wantuil no livro “Biografia de Kardec”, comenta a cerca disto, atestando que muitas sociedades secretas já pesquisavam em suas oficinas o fenômeno mediúnico, no entanto devido ao caráter da mesma, não divulgavam estes fenômenos para o público.

Neste ínterim, as sessões mediúnicas realizadas na casa do senhor Baudin (Émile Charlie Baudin), não tinham mais a frivolidade de antes, pois o Bom Senso Encarnado (título dado por Gabriel Delanne no discurso de enterro do codificador - vide Obras Póstumas), havia enxergado muito além das frívolas sessões de entretenimento social. Ele começou a revisar as perguntas dos cadernos e algumas delas foram descartadas e daí surgiu a segunda edição de O Livro dos Espíritos com 1019 perguntas, no formato In-12, dividido em quatro partes a baixo citadas:

I Parte - Das Causas Primárias;

II Parte - Da Vida Espírita;

III Parte - Das Leis Morais;

IV Parte - Das Esperanças e Consolações.

O codificador não parou por aí e das quatro partes de O Livro dos Espíritos, Kardec desdobrou os seus escritos dando origem aos livros básicos do pensamento espírita.

Da primeira parte surgiu o livro : "A Gênese ".

Da segunda surgiu: "O Livro dos Médiuns ".

Da terceira parte: " O Evangelho Segundo o Espiritismo".

Da quarta surgiu : "O Céu e O inferno ". 

 

O Espiritismo chega ao Brasil pela Bahia, na imagem de Luíz Olímpio Teles de Menezes, que criou: o Grêmio Familiar Espírita e o primeiro jornal espírita do Brasil, o Eco Além Túmulo. Tais iniciativas de Teles de Menezes, lhe rendeu várias perseguições do movimento católico. Algumas charges foram publicadas com a sua pessoa em jornais, além de perseguições profissionais e sociais a sua pessoa.

No início, sem o devido embasamento, Teles de Menezes achou que o Espiritismo poderia conviver harmonicamente com os princípios católicos, posteriormente com o estudo sistematizado das obras espíritas, ele viu a impossibilidade.

Alguns anos depois, o Espiritismo seguiu para o Rio de Janeiro e lá tomou outra dimensão. Vários núcleos de estudos foram criados e o movimento espírita ganhou proporções nacionais. Apesar da existência de várias imagens importantes, gostaríamos de lembrar a contribuição de Bezerra de Menezes, o médico dos pobres.

Bezerra de Menezes após a sua investida no meio político, converteu-se maduramente ao Espiritismo após quase uma década de estudos de seus princípios. Ao observar a incompatibilidade da sua crença, com a prática política, abandonou o meio político e daí veio a criar o que hoje chamamos de Centro Espírita, e o Curso de Formação Mediúnica, onde os médiuns poderiam estudar e praticar a mediunidade, de maneira ordenada.

Bezerra de Menezes fora muito criticado pelo meio espírita da época, no entanto mesmo sozinho, manteve pacientemente o seu ideal, que foi difundido para diversos locais do país.

Após o Pacto Áureo, evento que conclamava as instituições espíritas a se unirem em nome do federativismo espírita, o movimento espírita baiano tentou encaminhar as suas ações juntamente com a FEB – Federação Espírita Brasileira, fundando a FEEB - Federação Espírita do Estado da Bahia. O Pacto Áureo na década de 50 remeteu-nos aos primeiros anos do Espiritismo na Europa, onde Kardec idealizava que as instituições espíritas agiriam harmonicamente entre elas, em prol da divulgação da doutrina.

Entendamos que esta idéia não é a defesa de uma ortodoxia espírita, que Kardec demonstrou ser frontalmente contra (vide Das Sociedades Espíritas em O Livro dos Médiuns e Controle Universal do Ensino dos Espíritos em O Evangelho Segundo o Espiritismo), mas do cultivo de lideranças espíritas que compreendessem as suas diferenças e respeitassem as suas ações, em prol da espiritualização da humanidade.

Em respeito a memória de Kardec no centenário de o LE, Canuto Abreu, publicou uma edição comemorativa da sua primeira edição, com 100 exemplares a serem distribuídos entre as instituições e lideranças de destaque do movimento espírita.

Um exemplar foi enviado para a França, para a Biblioteca de Lyon e as demais delas distribuídas entre as lideranças espíritas mundiais e posteriormente entre as instituições e lideranças espíritas brasileiras.

Quatro destes exemplares, a meu conhecer, se encontram na Bahia. Uma com: professor Divaldo Franco, outra com: FEEB na biblioteca da Casa de Petitinga (esta inclusive eu tive a oportunidade de manipular e ler), a terceira com: Dr. Carlos Bernardo Loureiro e a quarta com o presidente da AME-BA: Ildefonso do Espírito Santo, que adquiriu o seu exemplar em uma feira espírita.

Hoje, carecemos de estudos que definam a repercussão das ações federativas na sociedade e no mundo. Não é possível conceber um movimento espírita apático, que não leve os princípios para a humanidade de forma a motiva-la e desenvolve-la espiritualmente. Ações como a criação de um canal espírita, revistas espíritas, sites e universidades, são a expressam da assimilação da doutrina, no entanto isto ainda é pouco.

É necessário, segundo Deolindo Amorim no livro “A Doutrina Espírita”, que criemos núcleos de cultura espírita, que possam discutir com os diversos ramos do saber, a forma pela qual o espírita poderá contribuir para o seu desenvolvimento. Neste local, as instituições poderiam dialogar sobre questões sociais e científicas, levando para a humanidade respostas para os problemas atuais e para os problemas resultantes do desenvolvimento tecnológico.

Neste sentido, miro com satisfação iniciativas como:

Cabe ao final de toda esta elucubração, relembrar a grande responsabilidade do Espiritismo: esclarecer e comprovar a humanidade, as bases dos seus princípios (a existência de Deus, a imortalidade da alma, a reencarnação, a mediunidade e a vida em outros planetas), de forma a possibilitar que a mesma desenvolva-se espiritualmente, compreendendo por que sofre e como poderá ser feliz.

Que o Bom Senso Encarnado possa agora e sempre, receber os louros pelo seu trabalho e consiga, na medida do possível, intuir-nos sobre as nossas ações.

[1]Quem quiser saber mais sobre a família Baudin e sobre a existência de Kardec como druida, leia o livro "Kardec, o druida encarnado". 

- Cláudio Manoel da Silva (BA)
                           
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