Uma visão do paraíso: presença de um imaginário espiritualista em obras de Gilberto Freyre

  

"Trabalho Apresentado no Teatro do Forte/ Museu da Cidade do Recife - Forte das Cinco Pontas em 13/05/2000 - Recife-PE - FORMAÇÃO DO BRASIL: Aspectos da Cultura e do Povo Brasileiro - Evento Alusivo ao Centenário do Nascimento de GILBERTO FREYRE".

 

"Quem se surpreender com um livro sobre assombração, de escritor que tem na Sociologia (como outros na Medicina ou na Engenharia) seu mais constante ponto de apoio ----   embora seja principalmente escritor e não sociólogo ---- que contenha sua surpresa ou modere seu espanto. Pois não há contradição radical entre Sociologia e História,  mesmo quando a História deixa de ser de revoluções para tornar-se de assombrações" (Freyre, Gilberto - Prefácio à 1ª edição de Assombrações do Recife Velho: algumas notas históricas e outras tantas folclóricas em torno do sobrenatural no passado recifense, Rio de Janeiro, edições Condé, 1955, p. xxix). 

 

UMA VISÃO DO PARAÍSO 

 

INTRODUÇÃO: 

Têm sido pouco explorados, de uma forma em geral, os estudos em torno de um imaginário espiritualista presente na cultura brasileira. Particularmente no universo da expressão religiosa, desconhecemos aspectos fundamentais na composição de raízes longínquas, difusas, de manifestações fenomênicas que impressionam aos sentidos e são interpretadas diferentemente. Pouco explorados, intérpretes da cultura brasileira e suas obras quanto à presença desse imaginário espiritualista.

Acerca de "O que falta estudar na história brasileira", Ronaldo Vainfas menciona uma lacuna temática sobre o período do Brasil Colonial: 

"- Poderia dar mais exemplos, mas são relativamente poucos os estudos sobre religiosidades, e a maioria prioriza os aspectos institucionais, quando não as reduzem às determinações econômicas ou de outro tipo, Entre os clássicos, somente Freyre deu atenção ao assunto, graças à sua genialidade e, sem dúvida, à sua formação antropológica culturalista... O relativo desdém dos historiadores diante das religiosidades contrasta, aliás, com a sensibilidade de sociólogos, como Bastide, de etnólogos como Métraux, e sobretudo, dos antropólogos, que sempre perceberam a importância do sobrenatural e do misticismo na sociedade brasileira" (Vainfas, Ronaldo. p. 9). 

Em Jacques Le Goff, o imaginário constitui-se "pelo conjunto das representações que exorbitam do limite colocado pelas constatações da experiência e pelos encadeamentos dedutivos que estas autorizam" (Patlagean, Evelyne - A história do imaginário, in: A História Nova   - Jacques Le Goff [org.] . Tradução Eduardo Brandão, 4ª edição. S. Paulo: Martins Fontes, 1998. P. 291). Nos domínios do imaginário: corpo, mentalidades, literatura, arte, festas, religiões, morte, sexualidade, loucura, sonhos, contos e lendas, a história da espiritualidade requer mesmo uma abordagem conceptual como da ordem de um Antoine Faivre (ésotérisme, théosophie, pansophie, gnose, occultisme, 1986).

A pluralidade Freyriana, do autor e suas obras, apresenta-se sensível às construções do imaginário e suas expressões numa história da vida privada brasileira: 

- "Abaixo dos santos e acima dos vivos ficavam, na hierarquia patriarcal, os mortos, governando e vigiando o mais possível a vida dos filhos, netos, bisnetos. Em muita Casa-Grande conservavam-se seus retratos no santuário, entre as imagens dos santos, com direito à mesma luz votiva de lamparina de azeite e às mesmas flores devotas, também se conservavam às vezes as tranças das senhoras, os cachos dos meninos que morriam anjos. Um culto doméstico dos mortos que lembra o dos antigos gregos e romanos". (Freyre, Gilberto - prefácio à 1a edição de Casa-Grande & Senzala, 1933 in: Casa-Grande & Senzala - 25a edição, Rio de janeiro; José Olympio Editora, 1987, p. lxix). 

Mais adiante:

---- "Os mal-assombrados das Casas-Grandes se manifestam por visagens e ruídos que são quase os mesmos por todo o Brasil. Pouco antes de desaparecer, estupidamente dinamitada, a Casa-Grande de Megaípe, tive ocasião de recolher, entre os moradores dos arredores, histórias de assombrações ligadas ao velho solar do século XVII. Eram barulhos de louça que se ouviam na sala de jantar; risos alegres e passos de dança na sala de visita; tilintar de espadas; ruge-ruge de sedas de mulher; luzes que se acendiam e se apagavam de repente por toda a casa; gemidos; rumor de correntes se arrastando; choro de menino, fantasmas do tipo  cresce-míngua. ­ Assombrações semelhantes me informaram no Rio de Janeiro e em São Paulo povoar os restos de Casas-Grandes do Vale do Paraíba. E no Recife, a Capela da Casa-Grande que foi de Bento José da Costa, assegura-me um antigo morador do sítio que toda noite, à meia-noite, costuma sair montada num burro, como Nossa Senhora, uma moça muito bonita, vestida de branco. Talvez a filha do velho Bento que ele por muito tempo não quis que casasse com Domingos José Martins fugindo à tirania patriarcal. Porque os mal-assombrados costumam reproduzir as alegrias, os sofrimentos, os gestos mais característicos da vida nas "Casas-Grandes". (Freyre, Gilberto. op. cit., idem pp. lxxi - lxxii). 

Ao leitor, Gilberto Freyre propunha a reflexão de considerar a sua obra um continuum, como se cumprisse um programa por ele próprio traçado nos seus dias de simples universitário: 

---- "Relendo o leitor mais pachorrento, com alguma atenção, trabalho já tão remoto como é o ensaio agora intitulado Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX, talvez concorde com o autor em que em suas páginas se encontra o gérmen de toda uma série de estudos que bem ou mal - provavelmente mal -    vieram a ser por eles realizados, dos trinta aos sessenta anos: Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mocambos, Nordeste, Ingleses no Brasil, Um Engenheiro Francês no Brasil, Ordem e Progresso, Em gérmen também estava durante algum tempo o até hoje inacabado Jazigos e Covas Rasas, em que o autor pretendeu reconstituir e interpretar, sob o mesmo critério sociológico e antropológico seguido naqueles ensaios, o conjunto de ritos de sepultamento de mortos, característicos tanto da convivência como da hierarquia patriarcais do Brasil.

Foi assim aquele trabalho do jovem ----      na verdade, de adolescente ---- a antecipação de várias das produções em que se empenharia o homem já feito, como se cumprisse um programa por ele próprio traçado nos seus dias de simples universitário. Antecipação não só daquelas produções, especificamente consideradas: também de todo um conjunto de métodos que se desenvolveriam, com algum pioneirismo,   naqueles e noutros trabalhos (Freyre, Gilberto. prefácio à 1ª edição em língua portuguesa de Vida Social no Brasil nos meados do século XIX - trad. do original inglês por Waldemar Valente, Recife, 1963, in: Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX - 3ª edição revista - Recife: Fund. Joaquim Nabuco, edit. Massangana, 1985. p. 36). 

A Presença de um imaginário espiritualista e sua importância na sociedade brasileira encontra na obra de Gilberto Freyre o valor que lhe confere um pensador social sem igual, dos métodos e técnicas pioneiros para captação, descrição e interpretação de fontes que magistralmente empreendeu, sob o desprezo desses recursos em sua época, hoje imprescindíveis nas ciências sociais e outras ciências. Viajantes e Cronistas tão ao seu gosto, promoveram as primeiras descrições do inóspito, segundo a sua classificação: autores superficiais ou viciados por preconceitos (Thévet, Expilly, Dabadie) e os bons e honestos (Léry, Hans Staden, Koster, Saint-Hilaire, Spix, Martius, Tollenare, Gardner, Maria Graham, Kidder, Fletcher). É Léry, por exemplo, a impressão que permanece em Claude Lévi-Strauss:


    "Ce Livre est beaucoup plus et beaucoup mieux qui cela. Que demande-t-on à l'ethnologue qui est allé sur, le terrain? De nous rendre vivants des êtres et perceptibles des choses qui sont à des milliers de Kilomètres. Qu'il dise, comme dans la fable: j'étais là, telle chose m'advint. Vous y croiriez être vous-même. Eh bien, avec Léry c'est encore plus extraordinaire! Non seulement ce qu'il décrit se situe a dix mille Kilomètres de la France, mais le témoignage date d'il y a quatre cents ans. Quatre siècles! Vous imaginez? C'est comme de la sorcellerie. Tout à coup, Léry fait revivre au présent et devant nos yeux un formidable spectacle. A travers son texte, nous découvrons les côtes du Brésil, la baie, de la France Antarctique qui est aujourd'hui celle de Rio de Janeiro: faune, flore, indigènes, rien ne manque. On y est, et ce qui immédiatement enchante et séduit, par rapport aux ouvrages d'un André Thevet, par example, c'est la fraîcheur  du regard de Léry" (Sobre Jean de Léry: Entrevista com Claude Lévi-Strauss por Dominique-Antoine Grisoni, in: Histoire d'un Voyage en Terre de Brésil - Jean de Léry - 2ª édition, 1580, Édition établie, présentée et annotée par F. Lestringant. Paris: Bibl. Classique. Le Livre de Poche, 1994).

Registra Claude Lévi-Strauss, março de 1935 ao desembarcar no Rio de Janeiro: "Rio est mordu par sa baie jusqu'au coeur; on débarque en plein centre, comme si l'autre moitié nouvelle ys, avait été déjà dévorée par les flots. Et en un sens c'est vrai puisque la première cité, simple fort, se trouvait sur cet îlot rocheux que le navire frôlait tant à l'heure et qui porte toujours le nom du fondateur: Villegaignon. Je foule l'Avenida Rio-Branco où s'élevaient Jadis les villages tupinanba, mais j'ai dans ma poche Jean de Léry, bréviaire de l'ethnologue" (Lévi-Strauss, Claude. Tristes Tropiques. Paris; Librairie Plon, 1955. p. 87).

Quatro obras de Gilberto Freyre serão razão de configurações e registros neste trabalho. Em disposição cronológica: Casa-Grande & Senzala (1933), Ingleses no Brasil (1948), Assombrações do Recife Velho (1955) e Ordem e Progresso (1959). 

CONFIGURAÇÕES E REGISTROS 

No dizer de Otto Maria Carpeaux, John Milton (1608-1674) é o maior poeta inglês depois de Shakespeare (1564-1616) e seguindo-se à obra deste, Paradise Lost (O Paraíso Perdido) a maior da literatura inglesa do século XVII. Obra prima da poesia épica universal, O Paraíso Perdido (1667) inspira-se na Gênesis bíblica, epopéia de Satã, para construção do Romantismo:


-      "Tão encantadora era essa paisagem! Satanás encontra, à sua proximação, um ar cada vez mais puro, que inspira ao coração prazeres e alegrias primaveris, capazes de expulsarem toda a tristeza, exceto o desespero.

Doces brisas , agitando as suas asas odoríferas, espalham perfumes naturais, revelando o lugar onde furtaram aqueles despojos embalsamados.

Como os navegantes que vogaram além do Cabo da Boa Esperança e já passaram moçambique, os ventos do noroeste trazem-lhes, no mar, os perfumes de Sabá, da praia  aromática da Arábia afortunada; encantados com a demora, diminuem ainda mais seu curso por várias léguas, regozijando-se  com o delicioso perfume, o velho oceano sorri: assim esses doces perfumes acolhiam o inimigo, que vinha para envenená-los" (MILTON, John - o Paraíso Perdido. Trad. Conceição G. Sotto  Maior. Rio: edit. Tecnoprint. p. 80).

Gilberto Freyre em seu diário de adolescência e de primeira mocidade (1915-1930)  ----  Tempo Morto e outros Tempos ---- registra:

 ----"Milton já está em português. A propósito: há em nossa biblioteca - com meu pai - um belo volume com O Paraíso Perdido em português. Ilustrações magníficas que eu e meus irmãos temos visto desde meninos pequenos, folheado, a princípio, o livro por gente grande que nos ia explicando essas ilustrações assim como as Dom Quixote, estas coloridas, outra esplêndida edição.

O precioso volume que é o Paraíso Perdido foi presente recebido por meu pai quando, menino, fez exames de Latim ou Português.  Meu pai, entretanto, parece nunca ter-se entusiasmado pela obra-prima de Milton. Nunca ouvi dele trechos do livro do poeta inglês que ele soubesse de cor como sabe longos trechos d'os Lusíadas, de Alexandre Herculano e em Latim, de Horácio e Virgílio. Ele me diz que meu avô Alfredo de quem foram vários dos clássicos hoje do meu pai - sabia também de cor muita página de clássico" (FREYRE, Gilberto - Tempo Morto e outros tempos. Trechos de um diário de adolescência e primeira mocidade [1915-1930]. Rio: Liv. José Olympio editora, 1975. Pp. 20-21).

O Romantismo satânico impregnando ares e mares, destes, já conhecido do velho Índico, chega ao Atlântico, quando do deslocamento do mito do Paraíso Terrestre para o universo atlântico, oriundo das intimidades da Ásia e da África. Tanto quanto no embate dual do Paraíso, o bem e o mal, as navegações marítimas sob o imaginário europeu, percebiam as vertentes, positiva e negativa. De Dragões, Áspides e Basiliscos, diria Sérgio B. de Holanda: "Todos esses prodígios, se algum dia existiram na Europa, segundo pareciam atestá-los velhas histórias, só se preservavam na Índia, particularmente, e na Etiópia, que continuaram a ser os dois viveiros de todas as maravilhas, sobretudo enquanto não se descobriu o Novo Continente" (HOLANDA, S.B. Visão do Paraíso - Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil - 6ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 204). Do acúmulo, deslocamento e refusão de lendas, o imaginário europeu engloba  a Terra de Santa Cruz. Observa Laura de Mello e Souza: "Descoberto, o Brasil ocupará no imaginário europeu posição análoga à ocupada anteriormente por terras longínquas e misteriosas que, uma vez conhecidas e devassadas, se desencantaram. Com o escravismo, este acervo imaginário seria refundido e reestruturado, mantendo, entretanto, profundas raízes européias. Prolongamento modificado do Imaginário europeu, o Brasil passava também a ser prolongamento da metrópole, conforme avançava o processo colonizatório" (Souza, L. de Mello - O Diabo e a Terra de Santa Cruz - São Paulo: Cia das Letras, 1986. p. 31). Jean de Léry (1536-1613), um bom e honesto autor para Freyre, adverte no início de seu diário: 

"J'advertiray en um mot, au commencement de ce chapitre, que pour l'esgard des animaux à quatre pieds, non seulement en  general, et sans exception, il ne s'en trouve pas un seul en ceste terre du Brésil en l'Amérique, qui en tout et par tout soit semblable aux nostres! Mais qu'aussi nos toüoupinambaoults n'en  nourrissent que bien rarement de domestiques" (op. cit. - chapitre X - Des Animaux, Venaisons, gros lezards, serpens, et autres bestes monstrueuses de l'Amerique, p. 257).

Em Casa-Grande & Senzala, tal é a riqueza de expressões de um imaginário espiritualista, que seria tão difícil enumerá-las quanto comentá-las. Numa tentativa de agrupá-las, teríamos:

a)  Mitos primitivos e gerais de origem indígena, européia e africana: Uma Zoologia Folclórica e Ciclos de Angústia Infantil.

b)  Antropologia da Morte: Atitudes diante da Morte, enterros, ritos domésticos, mortalidade infantil.

c)  Concepções e Práticas Demonológicas: Feitiçaria, Sortilégios, Magia Negra, Mandingas, Mau olhado.

O Jurupari seria o centro de todas as ações maléficas na convergência de opiniões dos cronistas padres do Brasil Colonial: Satanás, Demônio vivo, encarnação autêntica das trevas, Diabo. 

"Do que não estava livre entre os selvagens a vida de menino nem de gente grande era de horrorosos medos. Medo de que o céu caísse por cima deles, medo de que a terra lhes fosse embora dos pés. Além do grande medo do Jurupari. Até de dia, estando tudo claro pelos terreiros, os meninos andavam vendo mal-assombrado, inclusive o próprio diabo, bem no meio dos seus brinquedos: corriam então para casa assustados ou aos gritos. Os demônios apareciam em geral com cabeças horríveis de bicho" (p. 139)... "O Diabo do sistema católico veio juntar-se ao complexo Jurupari ou mesmo absorvê-lo" (Freyre, Gilberto - Casa-Grande & Senzala - 25ª edição, 1987. p. 140).

Jurupari, de Iurupari, nome próprio de um antigo legislador índio. Máscara, Pari da boca ou do rosto, Rua: iu-ru-pari, meter um pari no próprio rosto (referência em Cascudo, Luis da Camara - Geografia dos Mitos Brasileiros, Edit. Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1983. p. 69).

Ciclo dos Monstros: Quaiazis, Coruqueamas, Maiturus, os Jiboiucus, a Simiavulpina, os Hipupiaras ou Hupupiaras (Freyre, G. op. cit., p. 140).

Hipupiara  (Cara de onça e corpo de Peixe): Ipupiara, corruptela de Ypúpiara, o que habita no fundo das águas, animal misterioso que os índios davam como o homem marinho, inimigo dos pescadores (referência em Cascudo, Luis da Camara. Op. cit., p. 126). 

----"Novos medos trazidos da África, ou assimilados dos índios pelos colonos brancos e pelos negros, juntaram-se aos portugueses da Côca, do papão, do Lobisomem, ao dos olharapos, da cocaloba, da farranca, da maria-da-manta, do trangomango, do homem-das-sete-dentaduras, das Almas Penadas" (Freyre, Gilberto, op. cit., p. 328).

"E o menino brasileiro dos tempos coloniais viu-se rodeado de maiores e mais terríveis mal-assombrados que todos os outros meninos do mundo. Nas praias o homem-marinho ---- Terrível devorador de dedos, nariz e piroca de gente. No mato, o saci-pererê, o Caipora, o homem de pés às avessas o boitatá. Por toda parte, a cabra-cabriola, a mula-sem-cabeça, o tutu-marambá, o negro do surrão, o tatu-gambeta, o xibamba, o mão-de-cabelo. Nos riachos e lagoas, a mãe-d'água. À beira dos rios, o sapo-cururu. De noite, as almas penadas" (Freyre, Gilberto, op. cit., p. 328).

O Quibungo, Kibungo, lobo de duas bocas, papão negro de grande cabeça. Comedor de crianças. Oriundo de Angola e Congo.

Ciclo Infantil: Tutu, Coca e Cuca, Mão de cabelo, Chibamba, Cabra Cabriola, a Bruxa.

O Papa-figo: Negro velho sujo, em farrapos, saem a noite capturando crianças para comer-lhes o fígado. 

" E havia ainda o papa-figo - homem que comia fígado de menino. Ainda hoje se afirma em Pernambuco que certo ricaço do Recife, não podendo se alimentar senão de fígado de criança, tinha seus negros por toda parte pegando menino num saco de estopa. E o Quibungo? este, então, veio inteiro da África para o Brasil..." (Freyre, Gilberto, op. cit., p. 328).

A propósito da tipologia dos encantamentos, monstros e demônios (Kappler, Claude, 1994), Gilberto Freyre evoca as figuras sedutoras que sob tantas condições mesológicas foram adaptadas sem prejuízo da funcionalidade:

"O longo contato com os sarracenos deixara idealizada entre os portugueses a figura da moura-encantada, tipo delicioso de mulher morena e de olhos pretos, envolta em misticismo sexual    sempre de encarnado, sempre penteando os cabelos ou banhando-se nos rios ou nas águas das fontes mal-assombradas    que os colonizadores vieram encontrar parecido quase igual entre as índias nuas e de cabelos soltos do Brasil" (Freyre, Gilberto. op. cit., p. 9).

Para Cascudo (op. cit., 1983. p. 125), a Sereia dos navegadores portugueses foi a convergência das Mouras Encantadas com as Oceânides e Nereidas Clássicas. A voz das Mouras e Oceânides e o corpo das Sereias.

Um complexo brasileiro do Bicho. Assim considerado por Freyre, o medo e a paixão por tantas formas e expressões de animais e compostos, por influência da tropicalidade, reconhecimento do habitat e integração mediante tendências totêmicas e animistas. Medo e respeito à floresta tropical, de uma fauna e flora para observar e classificar (Freyre, Gilberto. op. cit., p. 131 e 141). Antecipações estas de Freyre, aos estudos atuais de historiadores, botânicos, naturalistas, lingüistas, antropólogos: L'Homme - Revue Française d'Anthropologie, Dossier-Observer, Nommer, Classer (153 Janvier/Mars 2000, éditions EHESS).

Das sugestões, uma dentre tantas valiosas contribuições da obra Freyriana, em virtude do didatismo, para futuros estudos, é o de fazer-se no Brasil um estudo das promessas a santos como reflexo das tendências estéticas do nosso povo: das suas predileções de cor, de nome, etc. (Freyre, Gilberto. op. cit., p. 399, nota 108). Estudo ainda nos domínios de um imaginário espiritualista, do sobrenatural, do transcendente. Para pesquisas em torno da descrição de modelos míticos de comportamento, observe-se o que já se realizou no candomblé brasileiro: Augras (1983), Segato (1995), etc.

Tanto as preocupações com a morte e suas variantes culturais, atitudes diante da morte e do morrer, cerimônias e ritos funerários, enterramentos, ritos domésticos no Brasil colonial, que Gilberto Freyre ao retratá-las chega a intimidade da morte, promovendo a partir de sua obra um referencial para os atuais trabalhos de História da Morte, Antropologia da Morte, Psicologia da Morte, Etnomedicina, uma Etnotanatologia.  

"Quando uma aparadeira saía para trabalhar quase sempre havia um luto: ou morria a mãe ou morria o bebê. Diante da freqüência dessas mortes, Gilberto Freyre observou o culto dos anjinhos, os cadáveres enfeitados dos recém-nascidos, num funeral quase festivo, como uma representação destinada a sublimar o choque emocional sofrido pelos pais" (Alencastro, Luiz Felipe de. 1997. p. 72).

As concepções demonológicas e suas práticas, feitiçaria mandingas, magia negra, macumba, feitiços, mau-olhado, quebrantos, sortilégios, bruxaria no Brasil colonial, correspondia a percepção  européia do homem americano em processo  de demonização. Para alguns religiosos o nome Brasil lembrava as chamas infernais, vermelhas. 

"É básicamente na relação com o sobrenatural que o homem da colônia paga tributo ao diabo e confirma seu caráter de humanidade diabólica. Assaltados por ilusões fantásticas, os pobres índios - diz thevet - vivem aterrorizados, temendo o escuro e levando consigo um fogo quando saem à noite. As ilusões não podem ser explicadas pelo raciocínio, pois os índios são destituídos da verdadeira razão: explicam-se pela incansável perseguição que move o maligno contra aqueles que não conhecem Deus" (Souza, L. Mello - op. cit., 1987, pp. 69-70). 

Sonhos, metamorfoses, invocações, pactos, sabbats, possessões, calundus são as formas de comunicação com o sobrenatural, registradas e muitas das quais já seguiam em processos de seus adeptos para Portugal (Inquisição). 

"A verdade é que perder um filho pequeno nunca foi para família patriarcal a mesma dor profunda que para uma família de hoje. Viria outro, o anjo ia para o céu. Para junto de Nosso Senhor, insaciável em cercar-se de anjos. Ou então era, mau-olhado. Cousa feita. Bruxedo. Feitiço. Contra o que só figas, os dentes de Jacaré, as rezas, os tesconjuros" (Freyre, Gilberto. op. cit., p. 366).

Fazem parte ainda dos registros de Freyre, as práticas neutralizadoras do feitiço, preventivas, o contra-feitiço, feitiço positivo, magia branca, magias sexuais, simpatias.

"O Brasileiro é por excelência o povo da crença no sobrenatural: em tudo o que nos rodeia sentimos o toque de influências estranhas; de vez em quando os jornais revelam casos de aparições, mal-assombrados, encantamentos. Daí o sucesso em nosso meio do alto e do baixo espiritismo" (Freyre, Gilberto, op. cit., p. 141).

INGLESES NO BRASIL.

Aspectos da Influência Britânica Sobre a Vida, a Paisagem e a Cultura do Brasil.

Publicado em 1948 quando "Há anos que penso em escrever alguma cousa sobre a influência dos ingleses no Brasil -        ingleses, é claro, no sentido de britânicos     que vá além dos simples improvisos até hoje aparecidos em torno do assunto" (Freyre, Gilberto. Introdução a Ingleses no Brasil, 1947, in: op. cit., 2ª edição. Rio, José Olympio: Brasília, INL, 1977. p. 3).

Sobre a pertinência da pesquisa, reunião de documentos e notas de interpretação histórica, sociológica e psicológica, Gilberto Freyre observa.

"A presença da cultura britânica no desenvolvimento do Brasil, no espaço, na paisagem, no conjunto da civilização do Brasil, é das que não podem       ou não devem? ser ignoradas pelo brasileiro interessado na compreensão e na interpretação do Brasil. Os ingleses, quase tanto quanto os franceses, madrugaram, sob a forma de piratas, aventureiros e negociantes, nas praias da América tropical descobertas por portugueses e espanhóis" (Freyre, Gilberto, Introdução, in: op. cit., p. 11).

No capítulo I - Aventura, Comércio e Técnica, encontramos os seguintes registros sobre os fantasmas ingleses e seu sucesso no Brasil: 

----" Na verdade, há fantasmas ingleses que fazem hoje  ----   ou desde o tempo do império     parte da cultura brasileira, tendo sido trazido até nós por ingleses, desde os meados do século passado mais empenhados que quaisquer outros em estudos quanto  possível científicos dos fenômenos denominados pelos franceses de metapsíquicos. Katie, o fantasma de Cabelo Castanho Claro quase louro, que Sir William Crookes, com toda sua sisudez de químico e de inglês, escreveu num dos seus depoimentos mais sensacionais sobre aqueles fenômenos ---- ter levantado um dia nos  braços, como quem carregasse uma moça ou levantasse uma dama130, é talvez, de todos os fantasmas ingleses, o mais querido da gente brasileira. Nem podia deixar de ser assim. Pois Katie é na literatura espiritista uma espécie de reencarnação de heroína de romance inglês. Um fantasma atraente de moça, de iaiá, de sinhazinha quase loura, de pálida madona dos meus sonhos; e não uma repelente alma-do-outro-mundo, muito menos uma horrenda mula-sem-cabeça, um fantasma digno do que houve de melhor na civilização britânica da era Vitoriana. Digno do que há de melhor na civilização cristã dos britânicos". (Freyre, Gilberto. op. cit., pp. 95-96).

A nota nº 130 ao Capítulo I: 

"William Crookes - Researches into the phenomena of Spiritualism, Londres, 1878. Parece que o número de "Casas mal-assombradas" no Brasil é hoje superior ao da Grã-Bretanha: 150, segundo Ingram no seu The Haunted Houses and Family Traditions of Great Britam. O que obriga a Europa a Curvar-se ante o Brasil. De qualquer modo, seria interessante confrontar  o comportamento dos fantasmas das casas nobres e castelos britânicos com o dos fantasmas das velhas Casas-Grandes e Sobrados brasileiros, para se constatarem diferenças ao lado de semelhanças. No Recife me informam ter sido visto mais de uma vez, subindo e descendo o mastro de antigo navio inglês colocado no parque de velha casa por algum tempo também de inglês, o fantasma de um marinheiro de S.M.B.E há vagas notícias de aparições a jangadeiros e pescadores de navios fantasmas, talvez ingleses, e a ingleses e brasileiros, de fantasmas de marujos ou piratas ingleses, reveladores de tesouros enterrados em ilhas ou praias desertas" (Freyre, Gilberto. Op. cit., pp. 103-104). 

Faz-se outra grande presença do imaginário europeu, particulamente do inglês. Sob a denominação de "Phantasms", as assombrações divertiam a elite social e convertiam os pesquisadores mais notáveis. Sem o medo dos trópicos, era possível a comunicação com o sobrenatural, sem o anátema da demonização num período denominado "Científico", das ciências psíquicas, por Charles Richet em seu Traité de Métapsychique (1922). A sugestão, peculiar em Freyre, de se confrontar  o comportamento dos fantasmas de castelos com os das velhas Casas-Grandes é antes de tudo um exercício de Fenomenologia Transcultural e poder-se-ia denominar de Etnoparapsicologia. Aliás, trabalho relativamente similar, apenas realizado entre países da Europa, foi o de Camille Flammarion - Les Maisons Hantées (1923). Dos sobrados brasileiros, Freyre já adiantara: 

"O sobrado grande raramente envelhecia sem criar fama de mal-assombrado. O Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, o Recife, Ouro Preto, Sabará, Olinda, São Cristóvão, São Luiz, Penedo - todas essas cidades mais velhas têm ainda hoje seus sobrados mal-assombrados. Num, porque um rapaz esfaqueou a noiva, na escada: desde esse dia a escada ficou rangendo ou gemendo a noite inteira. Noutro, por causa de dinheiro enterrado no chão ou na parede, aparece alma penada. Num terceiro, por causa de judiarias do Senhor com os negros, ouvem-se gemidos de  noite. E às vezes, quando cai um velho sobrado desses, dos tempos patriarcais, ou quando o derrubam, ou quando lhe alteram a estrutura, aparecem mesmo ossos de pessoas, botijas de dinheiro, moedas de ouro do tempo del-Rei Dom José ou del-Rei Dom João" (Freyre, Gilberto - Sobrados e Mucambos - decadência do Patriarcado Rural e desenvolvimento do urbano. 5ª edição, 1º tomo, Rio, J. Olympio; Brasília, INL, 1977. P. 229).  

Do Espiritualismo e pesquisa psíquica na Inglaterra, Oppenheim esclarece: 

"Cook was merely an adolescent when her "full-form materializations became the talk of every Spiritualistic circle in London and even abroad". The phenomenon of full-form materialization did not figure prominently in Home's repertoire, but it was Cook's specialty, and her emboidied control, or spirit guide, "Katie King", quieckly became a familiar name in Victorian spiritualist households. Crookes investigated these full-form materializations over and extended period of time and was privileged to walk arm in arm with the attractive spirit" (Oppenheim, Janet. The other World: Spiritualism and Psychical Research in England, 1850 - 1914. Cambridge: Cambridge University Press, 1985. p. 17).

E como proposta de conclusão: 

"Spiritualists and psychical researchers in the Victorian and Edwardian decades sough to achieve both of these related aims, and many felt that they had obtained  considerable success in their endeavors. In seeking to evaluate those efforts, and in trying to understand the varied response of the British scientific community to them, problems of definition furnish  substantial obstacles. One needs to know precisely what science meant to the british public after 1850 and what were perceived as the limits of its jurisdiction. But there are no clear answers to those questions during the period under consideration, for people thought about science from Widely diverse perspectives. The imprecise concept of a scientific "establishment" likewise makes it difficult to grasp accurately the relationship between spiritualism and psychical research, on the one hand, and the scientific profession in Britain, on the other" (Oppenheim, Janet. Op. cit.,  p. 391).

ASSOMBRAÇÕES DO RECIFE VELHO:

Algumas Notas Históricas e Outras Tantas Folclóricas em Torno do Sobrenatural no Passado Recifense. 

Publicado em 1955. Expressão maior da temática a qual no propomos neste trabalho, Assombrações do Recife Velho já foi matéria de artigo em periódico espírita e objeto de estudo em curso de Parapsicologia: 

----"Espiritismo em cativante Livro de Gilberto Freyre". De Elias Barbosa. Publicado no Anuário Espírita 1993, editado pelo Instituto de Difusão Espírita - IDE - de Araras/SP (pp. 46-68).

Essa preocupação com os vivos e com os mortos, era particular em Freyre na sua História da Vida Privada da Sociedade Brasileira, La Nouvelle Histoire, onde percebe-se seu propósito inicial de concluir a série de estudos em torno da sociedade patriarcal no Brasil, das suas origens e do seu desenvolvimento com o ensaio Jazigos e Covas Rasas: 

"Não é descabido, nem em Sociologia nem em Psicologia Social, considerar-se o fato de que não há sociedade ou cultura humana da qual esteja ausente a preocupação dos vivos com os mortos. E essa preocupação, quase sempre, sob alguma forma de participação dos mortos nas atividades dos vivos. O próprio Positivismo admite que "os vivos" sejam "governados pelos mortos". A gente mais simples admite a participação dos mortos na sua vida sob a forma de "visagens" ou "assombrações" em que as supostas manifestações de espíritos de mortos às vezes se confundem com supostas aparições do próprio Demônio. Ou de pequenos e médios demônios, desde que o mundo demoníaco tem também sua hierarquia" (Freyre, Gilberto - prefácio à 1ª edição de Assombrações do Recife Velho, 1951, in: op. cit., 3ª edição. Rio de Janeiro, J. Olympio; Brasília, INL, 1974. p. xxix).

Os casos de "Assombrações", alguns casos e algumas casas, nunca saíram da pauta de interesse da opinião pública. Sempre sob um véu de mistério, insinuações, palpites, testemunhas, estórias de visões de vultos, sombras, percepção de ruídos, luzes, cores e odores enriqueceram a história oral e a literatura. O medo e a curiosidade se alternam ante a possibilidade de circunscrição do fenômeno ou suposto fenômeno. A história do Medo é a história de uma escala de valores da própria terminologia que foi sendo empregada em ocasiões distintas: Fantôme, Spectre, Ombre, Esprit, Ectoplasme, Larve, Revenant (Lecouteux, Claude. 1986):

"Notre langue dispose de plusieurs  termes pour désigner ces morts inquiétants, mais ils sont en général tenus pour synonymes alors qu'ils recouvrent des réalités différentes. Tout le monde connait - fantôme -, qui évoque l'idée d'illusion et de fantasmagorie, - spectre -, auquel s'attache une notion d'effroi ou d'horreur, celle que provoque le squelette ricanant ou le cadavre en decomposition, - ombre -, qui relève surtout du vocabularire poétique et rappelle la dissolution du corps dans le trépas, - esprit -, qui reste vague et exprime la perplexité humaine face à des manifestations inexpliquées, rangées dans le monde de la parapsychologie - esprit, est-tu là? - Ectoplasme est récent et sert à désigner une forme immatérielle, celle qui s'échappe du médium en transe, - Larve -, vocable hérité des Romains, n'est plus guère usité dans son sens premier, celui de défunt privé du repos éternel pour une raison ou une autre. - Revenant -, par contre, suggère immédiatement le retour d'un mort" (Lecouteux, Claude. Fantômes et Revenants au moyen Âge. Paris: éditions Imago, 1996. pp. 7 - 8).

As notas históricas e outras tantas folclóricas em torno do sobrenatural no passado recifense, de Freyre, antecipam de muito a uma sociologia do sobrenatural. Escritos que precedem aos de Ariès (1975; 1977), Delumeau (1978), LeGoff (1981), Vovelle (1981), Lecouteux (1986), Schmitt (1994), dentre outros.

Assombrações do Recife Velho, antecipação no gênero aos estudos e descrições do imaginário urbano, social, citadino, por exemplo como ao de Jean Jacques GABUT – Lyon Magique et Sacré: Histoires et mystères d’une Ville, 1993. Gênero, o de Freyre, de colocar as assombrações, o sobrenatural num roteiro. Prático, Histórico e Sentimental de cidades brasileiras: os Guias do Recife (1934) e de Olinda (1939). Estilo cativante na conversão do medo em paixão. Paixão pelos nossos fantasmas, que seduzem-nos e se apropriam dos seus espaços tal como nichos que lhe são sagrados.

“Os mistérios que se prendem à história do Recife são muitos: sem êles o passado recifense tomaria o frio aspecto de uma história natural. E pobre da cidade ou do homem cuja história seja só história natural” (Freyre, Gilberto, Op. cit., Introdução. p. 5)

ORDEM E PROGRESSO: Processo de Desintegração das Sociedades Patriarcal e Semipatriarcal no Brasil Sob o Regime de Trabalho Livre-Aspectos de um Quase Meio Século de Transição do Trabalho Escravo para o Trabalho Livre e da Monarquia para República.

Publicado em 1959. Ensaio que encerra a trilogia-série de estudos em torno da sociedade patriarcal no Brasil. Com 183 depoimentos autobiográficos – inovação metodológica – de brasileiros nascidos entre 1850 e 1900. 

“Ao Espiritismo religioso ou filantrópico juntou-se, no Brasil de Pedro II já homem de mais de cinqüenta anos – e talvez sob o estímulo da guerra com o Paraguai, que enlutou tantas famílias – o outro: o  curioso do sobrenatural. Daí o furor causado de setenta e tantos a oitenta e poucos, por “professores” que se diziam mestres de “Espiritismo moderno” – um deles, certo Pedro d’Amico. Ele e seu filho Vicente apresentaram-se ao público brasileiro em exibições pelos teatros de que também participava uma Mme Felicie. Fizeram sensação. Sobre muito Católico, a influência dessas exibições foi no sentido de avivar-lhe a fé. Outros, porém, deixaram-se atrair para um Espiritismo de algum modo rival romântico do misticismo clássico da Igreja, em seu modo de ser doutrina religiosa, ética e até terapêutica e de interpretar o sobrenatural”. (Freyre, Gilberto. Op. cit., 4ª edição, 1990. p. lxxxi – lxxxii).

“Curioso é que, freqüentando sessões de espiritismo do tipo puramente experimental – sessões que foram freqüentes no Brasil do fim do século XIX e do começo do atual – até positivistas deixaram-se impressionar por “mensagens” ou “comunicações” de mortos seu conhecidos. Foi o que aconteceu certo dia com Martins Júnior, presente a uma dessas sessões: convenceu-se de que lhe falara, sem ele saber explicar como, seu amigo Raul Pompéia, que há pouco se suicidara misteriosamente” (Freyre, Gilberto. Op. cit., 4ª edição. 1990. p. lxxxii)

A configuração de um Imaginário Espiritualista na República, se confunde com a própria ordem republicana e positivista. Surgido na França em 1857, com a publicação de Le Livre des Esprits (O Livro dos Espíritos) por Allan Kardec (pseudônimo bretão do pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, discípulo de Pestalozzi, 1804-1869), O Espiritismo como doutrina, só chega ao Brasil aproximadamente dez anos depois. Contudo, a impresa veiculara muito antes, a partir de 1853, notícias sobre sessões experimentais na Europa e que se tornariam bastante freqüentes em certos círculos brasileiros.

Sábado, dois de julho de 1853, o Diário de Pernambuco registrava na secção Exterior – Correspondências do D.P (Paris, Vinte de Maio de 1853): 

“... Apesar das preoccupações políticas um facto bizarro e que talvez não lhe he desconhecido, attrahe neste momento a attenção curiosa do público, quero fallar do phenomeno das tabolas volleantes (tables tournantes). Esta bizarra descoberta nos veio da América do Norte, porém aclimatou-se logo em França, onde faz andar em roda todas as cabeças. Na hora em que lhe escrevo, não se póde pôr pé em um salão, sem ver toda a sociedade em torno de uma mesa redonda tendo cada um o dedo mínimo apoiado no do visinho, e esperando todos em silêncio que a tabula queira voltar” (Diário de Pernambuco nº 145 – ano XXIX, 02/07/1853. p. 02).

Ainda em 1853, duas transcrições se destacariam no cenário internacional: “A Dansa das Mesas” de Cossart du Courrier du Bas-Rhim Presse (Diário de Pernambuco, 11/07/1853. p. 02) e “A Seita dos Espíritos” de Guilherme Depping do L’Illustration (07/05/1853) – Diário de Pernambuco (11/07/1853. p. 02). Antecipando-se na veiculação do noticiário na sociedade pernambucana do século XIX, acerca da coqueluche européia das “Mesas Girantes” o Diário de Pernambuco também oferecia os primeiros anúncios de médicos, de cirurgiões e de boticáros e, mesmo o grande alvoroço nos métodos de aplicar remédio com a chegada em 1848 do médico sergipano Dr. Sabino Olegário Ludgero Pinho, um dos maiores propagadores da Homeopatia na província. Médicos homeopatas se interessavam pelas curas magnéticas e sonambúlicas que seguiam as idéias do médico austríaco Mesmer (1733-1815). Junto com o Kardecismo e a Homeopatia, os tratamentos médicos por magnetismo faziam sucesso. Outros grandes homeopatas  se destacariam: Dr. Benoît Jules Mure (1809-1858), introdutor da homeopatia no Brasil, Dr. José Alexandre Melo Moraes (1816-1882) e Dr. Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900). Este último, cearense, deputado federal por dois mandatos, abolicionista, seria conhecido entre os espíritas como “O Médico dos Pobres”. 

“O fato é que entre a medicina e o espiritismo, no Recife desde os dias das primeiras “aparições” ou das primeiras “receitas” de Dornelas, que há namôro. No consultório de dois médicos ilustres dos primeiros anos da República – médicos e propagandistas da abolição e da república: Os mesmos que freqüentaram por algum tempo as sessões na casa do negociante D. – Chegou a fazer-se espiritismo experimental ou científico... Foi numa dessas sessões de consultório de médico que se passou o caso que vai aqui fixado pela primeira vez: o encontro – segundo a intepretação de alguns – de Raul Pompéia já morto com Martins Júnior ainda vivo. Pelo menos Martins, o homem do “Direito Positivo” e da “Poesia Científica”, ficou convencido de que com ele se comunicara, pelo lápis de um médium, o próprio Raul Pompéia. Foi um assombro para o cientificista não só do  Direito como da Poesia” (Freyre, Gilberto. Assombrações do Recife Velho 3ª edição. 1974. pp. 58-60).

Eram conhecidos os autores espíritas e a literatura mística: Flammarion, Léon Denis, Allan Kardec e Swedenborg. Freyre recolhe depoimentos característicos,  em alguns casos, dos que se diziam convertidos após terem nascido católicos e aceitado o positivismo, ou dos simplesmente fascinados com a fenomenologia (Modern Spiritualism): Ordem e Progresso – 4ª edição, 1990. pp. 257,  562.

Ao controle experimental do sobrenatural, proposta positivista empreendida pelos primeiros adeptos das manifestações ---- médicos, engenheiros, juízes, políticos, jornalistas, escritores   ---- segue-se a proposta institucional da vida religiosa, o Espiritismo com suas associações beneficentes.

“Em 1882 organizou-se a Federação Espírita Brasileira, tendo entre seus fundadores o então major do exército, depois marechal Francisco Raimundo Ewerton Quadros e da qual veio a ser parte uma “Assistência aos necessitados”, ao lado de uma “escola de médiuns” (Freyre, Gilberto, op. cit., p. 535). 

 

 CONCLUSÕES 

As configurações e registros falam a favor da presença de um imaginário espiritualista em obras de Gilberto Freyre. Não seria possível existir um pluralismo Freyriano sem preencher a lacuna temática do sobrenatural e do misticismo na sociedade brasileira.

A partir do registro feito em quatro obras básicas: Casa-Grande & Senzala (1933), Ingleses no Brasil (1948), Assombrações do Recife Velho (1955) e Ordem e Progresso (1959), tornou-se evidente a funcionalidade do imaginário reconstituído em cada época. Sem distinguir  a religiosidade de qualquer outro componente da vida íntima brasileira, Gilberto Freyre não particulariza o irracional e seu significado, os símbolos e suas representações, as festas e os ritos, o medo e o mito. Todos estão envolvidos no processo de construção de uma identidade nacional, uma interpretação da Cultura Brasileira. O sociólogo-antropólogo culturalista se antecipa às Ciências do Imaginário, domínio de uma sociologia do sobrenatural, uma sociologia do imaginário: do pensamento obscuro, do sonho, do fantasma das doenças mentais, dos transes religiosos, do símbolo, do mito, dos rituais. Sem restrições ao selvagem, ao primitivo e sua mentalidade, o itinerário do invisível é tão notório quanto os espaços públicos, familiares e domésticos. Conjugando o perfil das Casas-Grandes e Sobrados mal-assombrados com o de Fantasmas europeus, Castelos, Maisons Hantées e Mulas-sem-cabeça, Gilberto Freyre exercitava uma trans-história numa significativa rede de imagens sem pátria.

                - Fernando Antônio Domingos Lins ( PE )

 

REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES

ALENCASTRO, Luiz Felipe de (1997)- “Vida Privada e Ordem Privada no Império”, in: História da Vida Privada no Brasil – vol. 2. São Paulo: Cia das letras, 1997. p. 44 e 72.

ARIÈS, Philippe (1975) – História da Morte no Ocidente: Da Idade Média aos nossos dias. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves editora, 1977.

-(1977) – O Homem diante da Morte. 02 Vols. Rio de Janeiro: Liv. Francisco Alves editora, 1981.

AUGRAS, Monique (1983) – O Duplo e a Metamorfose. Rio de Janeiro; editora Vozes, 1983.

BARBOSA, Elias (1993) – “Espiritismo em Cativante Livro de Gilberto Freyre”, in: Anuário Espírita. São Paulo: IDE, 1993. pp. 46-68.

CARVALHO, José Murilo de. (1990) – A Formação das Almas: O Imaginário da República no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

CARPEAUX, Otto Maria (1959-1966) – História da Literatura Ocidental – Vol. 3 – 2ª edição revista e atualizada. Rio:  editorial Allambra, 1980. p. 651.

CALLIER-BOISVERT, Colette (2000) – “Observer, nommer au XVIe siècle – Les “gentils” du Brésil”, in: L’Homme 153 (Janvier-Mars). Paris, EHESS. Pp. 37-62.

CASCUDO, Luís da Camara (1974) – Geografia dos Mitos Brasileiros. Belo Horizonte/ São Paulo, edit. Itatiaia Ltda/Edusp, 1983.

DELUMEAU, Jean (1978) – História do Medo no Ocidente – 1300-1800: Uma Cidade Sitiada, São Paulo: Cia. das Letras, 1989.

-(1995) – Mil anos de Felicidade: Uma História do Paraíso. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.

DURAND, Gilbert (1994) – O Imaginário: ensaio acerca das ciências e da filosofia da Imagem. Rio de Janeiro: Difel, 1998.

FAIVRE, Antoine (1986) –Accès de l’ésotérisme Occidental. Tome I. Nouvelle éditon Revue. Paris: éditions  Gallimard, 1996, pp. 15-49.

FREYRE, Gilberto (1933) – Casa-Grande & Senzala. 25ª edição. Rio: José Olympio editora, 1987.

-(1936) – Sobrados e Mucambos. 1º Tomo. 5ª edição. Rio, J. Olympio: Brasília, INL, 1977.

-(1948) – Ingleses no Brasil. 2ª edição. Rio, José Olympio: Brasília, INL, 1977.

-(1955) – Assombrações do Recife Velho. 3ª edição. Rio, J, Olympio; Brasília, INL, 1974.

-(1959) – Ordem e Progresso. 4ª edição. Rio de Janeiro: Record, 1990.

-(1964) – Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX. 3ª edição revista. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, edit. Massangana, 1985.

-(1975) – Tempo Morto e outros Tempos. Trechos de um diário de adolescência e primeira mocidade (1915 – 1930). Rio: José Olympio editora, 1975.

GABUT, Jean-Jacques (1993) – Lyon Magique et Sacré: Histoires et Mystères d’une Ville, Éditions de BOREE. 1993.

HOLANDA, Sérgio B. de (1936) – Raízes do Brasil. 17ª edição. Rio: José Olympio editora, 1984.

-(1959) – Visão do Paraíso. 6ª edição. São Paulo: edit. Brasiliense, 1994.

KAPPLER, Claude (1980) – Monstros, Demônios e Encantamentos no Fim da Idade Média. 1ª edição brasileira. São Paulo: Liv. Martins Fontes editora, 1994.

LECOUTEUX, Claude (1986) – Fantômes et Revenants au Moyen Âge. Paris: Imago, 1996.

LE GOFF, Jacques  (1981) – La Naissance du Purgatoire. Collection Folio / Histoire. Paris, édition Gallimard, 1981.

-(1978) – A História Nova. Trad. Eduardo Brandão, 4ª edição. S. Paulo: Martins Fontes, 1998. p. 291

LÉVI-STRAUSS, Claude (1955) – Tristes Tropiques. Paris: Librairie Plon, 1955.

LÉRY, Jean de (1578) – Histoire d’un Voyage en terre du Brésil.   2ª édition, 1580. Paris : Bibliothèque Classique. Le Livre de Poche, 1994.

MELLO E SOUZA, Laura de (1986) - O Diabo e a Terra de Santa Cruz. Feitiçaria e Religiosidade Popular no Brasil Colonial. São Paulo: Cia das Letras, 1986.

-(1993) Inferno Atlântico – Demonologia e Colonização (séculos XVI – XVIII). São Paulo: Cia. das Letras, 1993.

-(1997) – História da Vida Privada no Brasil (org.) Vol. I. São Paulo: Cia. das Letras, 1997.

MILTON, John (1667) – O Paraíso Perdido (Paradise Lost). Trad. de Conceição G. Sotto Maior. Rio; edit. Tecnoprint. s.d.

OPPENHEIM, Janet (1985) – The Other World: Spiritualism and Psychical Research in England, 1850-1914. Cambridge: Cambridge University Press, 1985.

PRADO, Jr. Caio (1942) – Formação do Brasil Contemporâneo – Colônia. São Paulo; Brasiliense, 1994.

REIS, João José (1991) – A Morte é uma Festa. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX. Cia das Letras, 1991.

SCHMITT, Jean Claude (1994) – Os Vivos e os Mortos na Sociedade Medieval. São Paulo: Cia. das Letras, 1999.

SEGATO, Rita Laura (1995) – Santos e Daimones: O Politeísmo Afro-brasileiro e a Tradição Arquetipal. Brasília: edit. Universidade de Brasília, 1995.

VAINFAS, Ronaldo (2000) – “O que falta estudar na história brasileira”, in: Folha de São Paulo, Caderno MAIS! Nº 425. São Paulo, 02 de abril de 2000. p. 09.

VERRI, Gilda M.W. (1994) – Viajantes Franceses no Brasil: Bibliografia. Recife: editora Universitária UFPE, 1994.

VOVELLE, Michel (1981) – La Mort et l’occident de 1300 à nos jours. Paris: Gallimard, 1981.

 

OUTROS:

 

FOLHA DE SÃO PAULO, (Caderno MAIS! nº 422) – Céu e Inferno de Gilberto Freyre. São Paulo, domingo, 12 de Março de 2000. pp. 05-28.

-(Caderno MAIS! nº 424) – O Mito Fundador do Brasil, Marilena Chauí. São Paulo, domingo, 26 de Março de 2000. pp. 05-11.

-(Caderno MAIS! nº 425) – Guia de Leitura da História Brasileira, São Paulo, domingo, 2 de abril de 2000. pp. 04-17.

REVISTA USP nº 38 – Dossiê Intérpretes do Brasil. São Paulo, 2000.

- Fernando Antônio Domingos Lins (PE)

Voltar