Uma visão do paraíso: presença de um imaginário espiritualista em obras de Gilberto Freyre
"Quem se
surpreender com um livro sobre assombração, de escritor que tem na Sociologia (como
outros na Medicina ou na Engenharia) seu mais constante ponto de apoio ---- embora seja principalmente escritor e não
sociólogo ---- que contenha sua surpresa ou
modere seu espanto. Pois não há contradição radical entre Sociologia e História, mesmo quando a História deixa de ser de
revoluções para tornar-se de assombrações" (Freyre, Gilberto -
Prefácio à 1ª edição de Assombrações do Recife Velho: algumas notas históricas e
outras tantas folclóricas em torno do sobrenatural no passado recifense, Rio de Janeiro,
edições Condé, 1955, p. xxix).
UMA VISÃO DO PARAÍSO
INTRODUÇÃO:
Têm sido
pouco explorados, de uma forma em geral, os estudos em torno de um imaginário
espiritualista presente na cultura brasileira. Particularmente no universo da expressão
religiosa, desconhecemos aspectos fundamentais na composição de raízes longínquas,
difusas, de manifestações fenomênicas que impressionam aos sentidos e são
interpretadas diferentemente. Pouco explorados, intérpretes da cultura brasileira e suas
obras quanto à presença desse imaginário espiritualista.
Acerca de
"O que falta estudar na história brasileira", Ronaldo Vainfas menciona uma
lacuna temática sobre o período do Brasil Colonial:
"- Poderia dar mais exemplos, mas são
relativamente poucos os estudos sobre religiosidades, e a maioria prioriza os aspectos
institucionais, quando não as reduzem às determinações econômicas ou de outro tipo,
Entre os clássicos, somente Freyre deu atenção ao assunto, graças à sua genialidade
e, sem dúvida, à sua formação antropológica culturalista... O relativo desdém dos
historiadores diante das religiosidades contrasta, aliás, com a sensibilidade de
sociólogos, como Bastide, de etnólogos como Métraux, e sobretudo, dos antropólogos,
que sempre perceberam a importância do sobrenatural e do misticismo na sociedade
brasileira" (Vainfas, Ronaldo. p. 9).
Em Jacques
Le Goff, o imaginário constitui-se "pelo conjunto das representações que exorbitam
do limite colocado pelas constatações da experiência e pelos encadeamentos dedutivos
que estas autorizam" (Patlagean,
Evelyne - A história do imaginário, in: A História Nova
- Jacques Le Goff [org.] . Tradução Eduardo Brandão, 4ª edição. S.
Paulo: Martins Fontes, 1998. P. 291). Nos domínios do imaginário: corpo,
mentalidades, literatura, arte, festas, religiões, morte, sexualidade, loucura, sonhos,
contos e lendas, a história da espiritualidade requer mesmo uma abordagem conceptual como
da ordem de um Antoine Faivre (ésotérisme, théosophie, pansophie, gnose, occultisme,
1986).
A
pluralidade Freyriana, do autor e suas obras, apresenta-se sensível às construções do
imaginário e suas expressões numa história da vida privada brasileira:
- "Abaixo dos santos e acima dos
vivos ficavam, na hierarquia patriarcal, os mortos, governando e vigiando o mais possível
a vida dos filhos, netos, bisnetos. Em muita Casa-Grande conservavam-se seus retratos no
santuário, entre as imagens dos santos, com direito à mesma luz votiva de lamparina de
azeite e às mesmas flores devotas, também se conservavam às vezes as tranças das
senhoras, os cachos dos meninos que morriam anjos. Um culto doméstico dos mortos que
lembra o dos antigos gregos e romanos". (Freyre, Gilberto
- prefácio à 1a edição de Casa-Grande & Senzala, 1933 in: Casa-Grande
& Senzala - 25a edição, Rio de janeiro; José Olympio Editora, 1987, p.
lxix).
Mais adiante:
---- "Os mal-assombrados das Casas-Grandes se
manifestam por visagens e ruídos que são quase os mesmos por todo o Brasil. Pouco antes
de desaparecer, estupidamente dinamitada, a Casa-Grande de Megaípe, tive ocasião de
recolher, entre os moradores dos arredores, histórias de assombrações ligadas ao velho
solar do século XVII. Eram barulhos de louça que se ouviam na sala de jantar; risos
alegres e passos de dança na sala de visita; tilintar de espadas; ruge-ruge de sedas de
mulher; luzes que se acendiam e se apagavam de repente por toda a casa; gemidos; rumor de
correntes se arrastando; choro de menino, fantasmas do tipo cresce-míngua.
Assombrações semelhantes me informaram no
Rio de Janeiro e em São Paulo povoar os restos de Casas-Grandes do Vale do Paraíba. E no
Recife, a Capela da Casa-Grande que foi de Bento José da Costa, assegura-me um antigo
morador do sítio que toda noite, à meia-noite, costuma sair montada num burro, como
Nossa Senhora, uma moça muito bonita, vestida de branco. Talvez a filha do velho Bento
que ele por muito tempo não quis que casasse com Domingos José Martins fugindo à
tirania patriarcal. Porque os mal-assombrados costumam reproduzir as alegrias, os
sofrimentos, os gestos mais característicos da vida nas "Casas-Grandes". (Freyre, Gilberto.
op. cit., idem pp. lxxi - lxxii).
Ao leitor,
Gilberto Freyre propunha a reflexão de considerar a sua obra um continuum, como se
cumprisse um programa por ele próprio traçado nos seus dias de simples universitário:
----
"Relendo o leitor mais pachorrento, com
alguma atenção, trabalho já tão remoto como é o ensaio agora intitulado Vida Social
no Brasil nos Meados do Século XIX, talvez concorde com o autor em que em suas páginas
se encontra o gérmen de toda uma série de estudos que bem ou mal - provavelmente mal - vieram a ser por eles realizados, dos
trinta aos sessenta anos: Casa-Grande & Senzala, Sobrados e Mocambos, Nordeste,
Ingleses no Brasil, Um Engenheiro Francês no Brasil, Ordem e Progresso, Em gérmen
também estava durante algum tempo o até hoje inacabado Jazigos e Covas Rasas, em que o
autor pretendeu reconstituir e interpretar, sob o mesmo critério sociológico e
antropológico seguido naqueles ensaios, o conjunto de ritos de sepultamento de mortos,
característicos tanto da convivência como da hierarquia patriarcais do Brasil.
Foi assim aquele trabalho do jovem ----
na verdade, de adolescente ---- a antecipação de
várias das produções em que se empenharia o homem já feito, como se cumprisse um
programa por ele próprio traçado nos seus dias de simples universitário. Antecipação
não só daquelas produções, especificamente consideradas: também de todo um conjunto
de métodos que se desenvolveriam, com algum pioneirismo,
naqueles e noutros trabalhos (Freyre,
Gilberto. prefácio à 1ª edição em língua portuguesa de Vida Social no Brasil nos
meados do século XIX - trad. do original inglês por Waldemar Valente, Recife, 1963, in:
Vida Social no Brasil nos Meados do Século XIX - 3ª edição revista - Recife: Fund.
Joaquim Nabuco, edit. Massangana, 1985. p. 36).
A Presença
de um imaginário espiritualista e sua importância na sociedade brasileira encontra na
obra de Gilberto Freyre o valor que lhe confere um pensador social sem igual, dos métodos
e técnicas pioneiros para captação, descrição e interpretação de fontes que
magistralmente empreendeu, sob o desprezo desses recursos em sua época, hoje
imprescindíveis nas ciências sociais e outras ciências. Viajantes e Cronistas tão ao
seu gosto, promoveram as primeiras descrições do inóspito, segundo a sua
classificação: autores superficiais ou viciados por preconceitos (Thévet, Expilly,
Dabadie) e os bons e honestos (Léry, Hans Staden, Koster, Saint-Hilaire, Spix, Martius,
Tollenare, Gardner, Maria Graham, Kidder, Fletcher). É Léry, por exemplo, a impressão
que permanece em Claude Lévi-Strauss:
"Ce Livre est
beaucoup plus et beaucoup mieux qui cela. Que demande-t-on à l'ethnologue qui est allé
sur, le terrain? De nous rendre vivants des êtres et perceptibles des choses qui sont à
des milliers de Kilomètres. Qu'il dise, comme dans la fable: j'étais là, telle chose
m'advint. Vous y croiriez être vous-même. Eh bien, avec Léry c'est encore plus
extraordinaire! Non seulement ce qu'il décrit se situe a dix mille Kilomètres de la
France, mais le témoignage date d'il y a quatre cents ans. Quatre siècles! Vous imaginez? C'est comme de
la sorcellerie. Tout à coup, Léry fait revivre au présent et devant nos yeux un
formidable spectacle. A travers son texte, nous découvrons les côtes du Brésil, la
baie, de la France Antarctique qui est aujourd'hui celle de Rio de Janeiro: faune, flore,
indigènes, rien ne manque. On y est, et ce qui immédiatement enchante et séduit, par
rapport aux ouvrages d'un André Thevet, par example, c'est la fraîcheur du regard de Léry" (Sobre
Jean de Léry: Entrevista com Claude Lévi-Strauss por Dominique-Antoine Grisoni, in:
Histoire d'un Voyage en Terre de Brésil - Jean de Léry - 2ª édition, 1580, Édition
établie, présentée et annotée par F. Lestringant. Paris: Bibl.
Classique. Le
Livre de Poche, 1994).
Registra
Claude Lévi-Strauss, março de 1935 ao desembarcar no Rio de Janeiro: "Rio est mordu
par sa baie jusqu'au coeur; on débarque en plein centre, comme si l'autre moitié
nouvelle ys, avait été déjà dévorée par les flots. Et en un sens c'est vrai puisque
la première cité, simple fort, se trouvait sur cet îlot rocheux que le navire frôlait
tant à l'heure et qui porte toujours le nom du fondateur: Villegaignon. Je foule
l'Avenida Rio-Branco où s'élevaient Jadis les villages tupinanba, mais j'ai dans ma
poche Jean de Léry, bréviaire de l'ethnologue" (Lévi-Strauss, Claude. Tristes Tropiques. Paris; Librairie
Plon, 1955. p. 87).
Quatro obras de Gilberto Freyre serão
razão de configurações e registros neste trabalho. Em disposição cronológica:
Casa-Grande & Senzala (1933), Ingleses no Brasil (1948), Assombrações do Recife
Velho (1955) e Ordem e Progresso (1959).
CONFIGURAÇÕES E REGISTROS
No dizer de Otto Maria Carpeaux, John Milton (1608-1674) é o maior poeta
inglês depois de Shakespeare (1564-1616) e seguindo-se à obra deste, Paradise Lost (O
Paraíso Perdido) a maior da literatura inglesa do século XVII. Obra prima da poesia
épica universal, O Paraíso Perdido (1667) inspira-se na Gênesis bíblica, epopéia de
Satã, para construção do Romantismo:
-
"Tão encantadora era essa paisagem! Satanás
encontra, à sua proximação, um ar cada vez mais puro, que inspira ao coração prazeres
e alegrias primaveris, capazes de expulsarem toda a tristeza, exceto o desespero.
Doces brisas , agitando as suas asas
odoríferas, espalham perfumes naturais, revelando o lugar onde furtaram aqueles despojos
embalsamados.
Como os navegantes que vogaram além do
Cabo da Boa Esperança e já passaram moçambique, os ventos do noroeste trazem-lhes, no
mar, os perfumes de Sabá, da praia aromática
da Arábia afortunada; encantados com a demora, diminuem ainda mais seu curso por várias
léguas, regozijando-se com o delicioso
perfume, o velho oceano sorri: assim esses doces perfumes acolhiam o inimigo, que vinha
para envenená-los" (MILTON, John - o
Paraíso Perdido. Trad. Conceição G. Sotto Maior.
Rio: edit. Tecnoprint. p. 80).
Gilberto Freyre em seu diário de
adolescência e de primeira mocidade (1915-1930) ---- Tempo Morto e outros Tempos ---- registra:
----"Milton já está
em português. A propósito: há em nossa biblioteca - com meu pai - um belo volume com O
Paraíso Perdido em português. Ilustrações magníficas que eu e meus irmãos temos
visto desde meninos pequenos, folheado, a princípio, o livro por gente grande que nos ia
explicando essas ilustrações assim como as Dom Quixote, estas coloridas, outra
esplêndida edição.
O precioso volume que é o Paraíso
Perdido foi presente recebido por meu pai quando, menino, fez exames de Latim ou
Português. Meu pai, entretanto, parece nunca
ter-se entusiasmado pela obra-prima de Milton. Nunca ouvi dele trechos do livro do poeta
inglês que ele soubesse de cor como sabe longos trechos d'os Lusíadas, de Alexandre
Herculano e em Latim, de Horácio e Virgílio. Ele me diz que meu avô Alfredo de quem
foram vários dos clássicos hoje do meu pai - sabia também de cor muita página de
clássico" (FREYRE, Gilberto
- Tempo Morto e outros tempos. Trechos de um diário de adolescência e primeira mocidade
[1915-1930]. Rio: Liv. José Olympio editora, 1975. Pp. 20-21).
O
Romantismo satânico impregnando ares e mares, destes, já conhecido do velho Índico,
chega ao Atlântico, quando do deslocamento do mito do Paraíso Terrestre para o universo
atlântico, oriundo das intimidades da Ásia e da África. Tanto quanto no embate dual do
Paraíso, o bem e o mal, as navegações marítimas sob o imaginário europeu, percebiam
as vertentes, positiva e negativa. De Dragões, Áspides e Basiliscos, diria Sérgio B. de
Holanda: "Todos esses prodígios, se
algum dia existiram na Europa, segundo pareciam atestá-los velhas histórias, só se
preservavam na Índia, particularmente, e na Etiópia, que continuaram a ser os dois
viveiros de todas as maravilhas, sobretudo enquanto não se descobriu o Novo Continente" (HOLANDA, S.B.
Visão do Paraíso - Os Motivos Edênicos no Descobrimento e Colonização do Brasil - 6ª
edição. São Paulo: Brasiliense, 1994. p. 204). Do acúmulo, deslocamento e refusão de
lendas, o imaginário europeu engloba a
Terra de Santa Cruz. Observa Laura de Mello e Souza: "Descoberto, o Brasil ocupará
no imaginário europeu posição análoga à ocupada anteriormente por terras longínquas
e misteriosas que, uma vez conhecidas e devassadas, se desencantaram. Com o escravismo,
este acervo imaginário seria refundido e reestruturado, mantendo, entretanto, profundas
raízes européias. Prolongamento modificado do Imaginário europeu, o Brasil passava
também a ser prolongamento da metrópole, conforme avançava o processo
colonizatório" (Souza, L. de
Mello - O Diabo e a Terra de Santa Cruz - São Paulo: Cia das Letras, 1986. p. 31). Jean de Léry (1536-1613), um bom e
honesto autor para Freyre, adverte no início de seu diário:
"J'advertiray en um mot, au
commencement de ce chapitre, que pour l'esgard des animaux à quatre pieds, non seulement
en general, et sans exception, il ne s'en
trouve pas un seul en ceste terre du Brésil en l'Amérique, qui en tout et par tout soit
semblable aux nostres! Mais qu'aussi nos toüoupinambaoults n'en nourrissent que bien rarement de domestiques"
(op.
cit. - chapitre X - Des Animaux, Venaisons, gros lezards, serpens, et autres bestes
monstrueuses de l'Amerique, p. 257).
Em
Casa-Grande & Senzala, tal é a riqueza de expressões de um imaginário
espiritualista, que seria tão difícil enumerá-las quanto comentá-las. Numa tentativa
de agrupá-las, teríamos:
a) Mitos primitivos e gerais de
origem indígena, européia e africana: Uma Zoologia Folclórica e Ciclos de Angústia
Infantil.
b) Antropologia da Morte:
Atitudes diante da Morte, enterros, ritos domésticos, mortalidade infantil.
c) Concepções e Práticas
Demonológicas: Feitiçaria, Sortilégios, Magia Negra, Mandingas, Mau olhado.
O Jurupari seria o centro de todas as ações
maléficas na convergência de opiniões dos cronistas padres do Brasil Colonial:
Satanás, Demônio vivo, encarnação autêntica das trevas, Diabo.
"Do que não estava livre entre os
selvagens a vida de menino nem de gente grande era de horrorosos medos. Medo de que o céu
caísse por cima deles, medo de que a terra lhes fosse embora dos pés. Além do grande
medo do Jurupari. Até de dia, estando tudo claro pelos terreiros, os meninos andavam
vendo mal-assombrado, inclusive o próprio diabo, bem no meio dos seus brinquedos: corriam
então para casa assustados ou aos gritos. Os demônios apareciam em geral com cabeças
horríveis de bicho" (p. 139)... "O Diabo do sistema católico veio juntar-se ao
complexo Jurupari ou mesmo absorvê-lo" (Freyre, Gilberto
- Casa-Grande & Senzala - 25ª edição, 1987. p. 140).
Jurupari, de Iurupari,
nome próprio de um antigo legislador índio. Máscara, Pari da boca ou do rosto, Rua: iu-ru-pari, meter um pari no próprio rosto (referência em
Cascudo, Luis da Camara - Geografia dos Mitos Brasileiros, Edit. Itatiaia; São Paulo:
Edusp, 1983. p. 69).
Ciclo dos Monstros: Quaiazis, Coruqueamas, Maiturus, os
Jiboiucus, a Simiavulpina, os Hipupiaras ou Hupupiaras (Freyre, G. op.
cit., p. 140).
Hipupiara (Cara
de onça e corpo de Peixe): Ipupiara, corruptela
de Ypúpiara, o que habita no fundo das águas, animal misterioso que os índios davam
como o homem marinho, inimigo dos pescadores (referência em
Cascudo, Luis da Camara. Op.
cit., p. 126).
----"Novos medos trazidos da África, ou assimilados dos
índios pelos colonos brancos e pelos negros, juntaram-se aos portugueses da Côca, do
papão, do Lobisomem, ao dos olharapos, da cocaloba, da farranca, da maria-da-manta, do
trangomango, do homem-das-sete-dentaduras, das Almas Penadas" (Freyre,
Gilberto, op. cit., p. 328).
"E o menino brasileiro dos tempos
coloniais viu-se rodeado de maiores e mais terríveis mal-assombrados que todos os outros
meninos do mundo. Nas praias o homem-marinho ---- Terrível devorador de dedos, nariz e piroca de gente. No
mato, o saci-pererê, o Caipora, o homem de pés às avessas o boitatá. Por toda parte, a
cabra-cabriola, a mula-sem-cabeça, o tutu-marambá, o negro do surrão, o tatu-gambeta, o
xibamba, o mão-de-cabelo. Nos riachos e lagoas, a mãe-d'água. À beira dos rios, o
sapo-cururu. De noite, as almas penadas" (Freyre,
Gilberto, op. cit., p. 328).
O Quibungo, Kibungo, lobo de duas bocas, papão
negro de grande cabeça. Comedor de crianças. Oriundo de Angola e Congo.
Ciclo Infantil: Tutu, Coca e Cuca, Mão de cabelo,
Chibamba, Cabra Cabriola, a Bruxa.
O Papa-figo: Negro velho sujo, em farrapos, saem a
noite capturando crianças para comer-lhes o fígado.
" E havia ainda o papa-figo - homem
que comia fígado de menino. Ainda hoje se afirma em Pernambuco que certo ricaço do
Recife, não podendo se alimentar senão de fígado de criança, tinha seus negros por
toda parte pegando menino num saco de estopa. E o Quibungo? este, então, veio inteiro da
África para o Brasil..." (Freyre,
Gilberto, op. cit., p. 328).
A
propósito da tipologia dos encantamentos, monstros e demônios (Kappler, Claude, 1994), Gilberto Freyre evoca as figuras
sedutoras que sob tantas condições mesológicas foram adaptadas sem prejuízo da
funcionalidade:
"O longo contato com os sarracenos
deixara idealizada entre os portugueses a figura da moura-encantada, tipo delicioso de
mulher morena e de olhos pretos, envolta em misticismo sexual sempre de encarnado, sempre penteando
os cabelos ou banhando-se nos rios ou nas águas das fontes mal-assombradas que os colonizadores vieram encontrar
parecido quase igual entre as índias nuas e de cabelos soltos do Brasil" (Freyre,
Gilberto. op. cit., p. 9).
Para Cascudo (op. cit., 1983. p. 125), a Sereia dos
navegadores portugueses foi a convergência das Mouras Encantadas com as Oceânides e
Nereidas Clássicas. A voz das Mouras e Oceânides e o corpo das Sereias.
Um complexo
brasileiro do Bicho. Assim considerado por Freyre, o medo e a paixão por tantas formas e
expressões de animais e compostos, por influência da tropicalidade, reconhecimento do
habitat e integração mediante tendências totêmicas e animistas. Medo e respeito à
floresta tropical, de uma fauna e flora para observar e classificar (Freyre,
Gilberto. op. cit., p. 131 e 141). Antecipações estas de Freyre, aos
estudos atuais de historiadores, botânicos, naturalistas, lingüistas, antropólogos:
L'Homme - Revue Française d'Anthropologie, Dossier-Observer, Nommer, Classer (153
Janvier/Mars 2000, éditions EHESS).
Das
sugestões, uma dentre tantas valiosas contribuições da obra Freyriana, em virtude do
didatismo, para futuros estudos, é o de fazer-se no Brasil um estudo das promessas a
santos como reflexo das tendências estéticas do nosso povo: das suas predileções de
cor, de nome, etc. (Freyre,
Gilberto. op. cit., p. 399, nota 108). Estudo ainda nos domínios de um
imaginário espiritualista, do sobrenatural, do transcendente. Para pesquisas em torno da
descrição de modelos míticos de comportamento, observe-se o que já se realizou no
candomblé brasileiro: Augras (1983), Segato (1995), etc.
Tanto as
preocupações com a morte e suas variantes culturais, atitudes diante da morte e do
morrer, cerimônias e ritos funerários, enterramentos, ritos domésticos no Brasil
colonial, que Gilberto Freyre ao retratá-las chega a intimidade da morte, promovendo a
partir de sua obra um referencial para os atuais trabalhos de História da Morte,
Antropologia da Morte, Psicologia da Morte, Etnomedicina, uma Etnotanatologia.
"Quando uma aparadeira saía para
trabalhar quase sempre havia um luto: ou morria a mãe ou morria o bebê. Diante da
freqüência dessas mortes, Gilberto Freyre observou o culto dos anjinhos, os cadáveres
enfeitados dos recém-nascidos, num funeral quase festivo, como uma representação
destinada a sublimar o choque emocional sofrido pelos pais" (Alencastro, Luiz
Felipe de. 1997. p. 72).
As
concepções demonológicas e suas práticas, feitiçaria mandingas, magia negra, macumba,
feitiços, mau-olhado, quebrantos, sortilégios, bruxaria no Brasil colonial, correspondia
a percepção européia do homem americano em
processo de demonização. Para alguns
religiosos o nome Brasil lembrava as chamas infernais, vermelhas.
"É básicamente na relação com o
sobrenatural que o homem da colônia paga tributo ao diabo e confirma seu caráter de
humanidade diabólica. Assaltados por ilusões fantásticas, os pobres índios - diz
thevet - vivem aterrorizados, temendo o escuro e levando consigo um fogo quando saem à
noite. As ilusões não podem ser explicadas pelo raciocínio, pois os índios são
destituídos da verdadeira razão: explicam-se pela incansável perseguição que move o
maligno contra aqueles que não conhecem Deus" (Souza, L. Mello -
op. cit., 1987, pp. 69-70).
Sonhos,
metamorfoses, invocações, pactos, sabbats, possessões, calundus são as formas de
comunicação com o sobrenatural, registradas e muitas das quais já seguiam em processos
de seus adeptos para Portugal (Inquisição).
"A verdade é que perder um filho
pequeno nunca foi para família patriarcal a mesma dor profunda que para uma família de
hoje. Viria outro, o anjo ia para o céu. Para junto de Nosso Senhor, insaciável em
cercar-se de anjos. Ou então era, mau-olhado. Cousa feita. Bruxedo. Feitiço. Contra o
que só figas, os dentes de Jacaré, as rezas, os tesconjuros" (Freyre,
Gilberto. op. cit., p. 366).
Fazem parte
ainda dos registros de Freyre, as práticas neutralizadoras do feitiço, preventivas, o
contra-feitiço, feitiço positivo, magia branca, magias sexuais, simpatias.
"O Brasileiro é por excelência o povo da
crença no sobrenatural: em tudo o que nos rodeia sentimos o toque de influências
estranhas; de vez em quando os jornais revelam casos de aparições, mal-assombrados,
encantamentos. Daí o sucesso em nosso meio do alto e do baixo espiritismo" (Freyre,
Gilberto, op. cit., p. 141).
INGLESES NO BRASIL.
Aspectos da Influência Britânica
Sobre a Vida, a Paisagem e a Cultura do Brasil.
Publicado em 1948 quando "Há
anos que penso em escrever alguma cousa sobre a influência dos ingleses no Brasil - ingleses, é
claro, no sentido de britânicos que
vá além dos simples improvisos até hoje aparecidos em torno do assunto" (Freyre, Gilberto.
Introdução a Ingleses no Brasil, 1947, in: op. cit., 2ª edição. Rio, José Olympio:
Brasília, INL, 1977. p. 3).
Sobre a
pertinência da pesquisa, reunião de documentos e notas de interpretação histórica,
sociológica e psicológica, Gilberto Freyre observa.
"A presença da cultura britânica
no desenvolvimento do Brasil, no espaço, na paisagem, no conjunto da civilização do
Brasil, é das que não podem
ou não devem? ser ignoradas pelo brasileiro
interessado na compreensão e na interpretação do Brasil. Os ingleses, quase tanto
quanto os franceses, madrugaram, sob a forma de piratas, aventureiros e negociantes, nas
praias da América tropical descobertas por portugueses e espanhóis" (Freyre,
Gilberto, Introdução, in: op. cit., p. 11).
No
capítulo I - Aventura, Comércio e Técnica, encontramos os seguintes registros sobre os
fantasmas ingleses e seu sucesso no Brasil:
----" Na verdade, há fantasmas ingleses que fazem hoje ---- ou desde o tempo do império parte da cultura brasileira,
tendo sido trazido até nós por ingleses, desde os meados do século passado mais
empenhados que quaisquer outros em estudos quanto possível
científicos dos fenômenos denominados pelos franceses de metapsíquicos. Katie, o
fantasma de Cabelo Castanho Claro quase louro, que Sir William Crookes, com toda sua
sisudez de químico e de inglês, escreveu num dos seus depoimentos mais sensacionais
sobre aqueles fenômenos ---- ter levantado um
dia nos braços, como quem carregasse uma
moça ou levantasse uma dama130, é talvez, de todos os fantasmas ingleses, o
mais querido da gente brasileira. Nem podia deixar de ser assim. Pois Katie é na
literatura espiritista uma espécie de reencarnação de heroína de romance inglês. Um
fantasma atraente de moça, de iaiá, de sinhazinha quase loura, de pálida madona dos
meus sonhos; e não uma repelente alma-do-outro-mundo, muito menos uma horrenda
mula-sem-cabeça, um fantasma digno do que houve de melhor na civilização britânica da
era Vitoriana. Digno do que há de melhor na civilização cristã dos britânicos".
(Freyre,
Gilberto. op. cit., pp. 95-96).
A nota nº
130 ao Capítulo I:
"William Crookes - Researches into the phenomena
of Spiritualism, Londres, 1878. Parece que o número de "Casas
mal-assombradas" no Brasil é hoje superior ao da Grã-Bretanha: 150, segundo Ingram
no seu The Haunted Houses and Family Traditions of Great Britam. O que obriga a Europa a
Curvar-se ante o Brasil. De qualquer modo, seria interessante confrontar o comportamento dos fantasmas das casas nobres e
castelos britânicos com o dos fantasmas das velhas Casas-Grandes e Sobrados brasileiros,
para se constatarem diferenças ao lado de semelhanças. No Recife me informam ter sido
visto mais de uma vez, subindo e descendo o mastro de antigo navio inglês colocado no
parque de velha casa por algum tempo também de inglês, o fantasma de um marinheiro de
S.M.B.E há vagas notícias de aparições a jangadeiros e pescadores de navios fantasmas,
talvez ingleses, e a ingleses e brasileiros, de fantasmas de marujos ou piratas ingleses,
reveladores de tesouros enterrados em ilhas ou praias desertas" (Freyre, Gilberto. Op.
cit., pp. 103-104).
Faz-se
outra grande presença do imaginário europeu, particulamente do inglês. Sob a
denominação de "Phantasms", as assombrações divertiam a elite social e
convertiam os pesquisadores mais notáveis. Sem o medo dos trópicos, era possível a
comunicação com o sobrenatural, sem o anátema da demonização num período denominado
"Científico", das ciências psíquicas, por Charles Richet em seu Traité de Métapsychique (1922). A sugestão, peculiar em Freyre,
de se confrontar o comportamento dos
fantasmas de castelos com os das velhas Casas-Grandes é antes de tudo um exercício de
Fenomenologia Transcultural e poder-se-ia denominar de Etnoparapsicologia. Aliás,
trabalho relativamente similar, apenas realizado entre países da Europa, foi o de Camille Flammarion - Les Maisons Hantées (1923). Dos sobrados brasileiros, Freyre
já adiantara:
"O sobrado grande raramente
envelhecia sem criar fama de mal-assombrado. O Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, o
Recife, Ouro Preto, Sabará, Olinda, São Cristóvão, São Luiz, Penedo - todas essas
cidades mais velhas têm ainda hoje seus sobrados mal-assombrados. Num, porque um rapaz
esfaqueou a noiva, na escada: desde esse dia a escada ficou rangendo ou gemendo a noite
inteira. Noutro, por causa de dinheiro enterrado no chão ou na parede, aparece alma
penada. Num terceiro, por causa de judiarias do Senhor com os negros, ouvem-se gemidos de noite. E às vezes, quando cai um velho sobrado
desses, dos tempos patriarcais, ou quando o derrubam, ou quando lhe alteram a estrutura,
aparecem mesmo ossos de pessoas, botijas de dinheiro, moedas de ouro do tempo del-Rei Dom
José ou del-Rei Dom João" (Freyre, Gilberto
- Sobrados e Mucambos - decadência do Patriarcado Rural e desenvolvimento do urbano. 5ª
edição, 1º tomo, Rio, J. Olympio; Brasília, INL, 1977. P. 229).
Do
Espiritualismo e pesquisa psíquica na Inglaterra, Oppenheim esclarece:
"Cook was merely an adolescent when her
"full-form materializations became the talk of every Spiritualistic circle in London
and even abroad". The phenomenon of full-form materialization did not figure
prominently in Home's repertoire, but it was Cook's specialty, and her emboidied control,
or spirit guide, "Katie King", quieckly became a familiar name in Victorian
spiritualist households. Crookes investigated these full-form materializations over and
extended period of time and was privileged to walk arm in arm with the attractive
spirit" (Oppenheim,
Janet. The other World: Spiritualism and Psychical Research in England, 1850 - 1914.
Cambridge: Cambridge University Press, 1985. p. 17).
E como
proposta de conclusão:
"Spiritualists and psychical researchers in the
Victorian and Edwardian decades sough to achieve both of these related aims, and many felt
that they had obtained considerable success
in their endeavors. In seeking to evaluate those efforts, and in trying to understand the
varied response of the British scientific community to them, problems of definition
furnish substantial obstacles. One needs to
know precisely what science meant to the british public after 1850 and what were perceived
as the limits of its jurisdiction. But there are no clear answers to those questions
during the period under consideration, for people thought about science from Widely
diverse perspectives. The imprecise concept of a scientific "establishment"
likewise makes it difficult to grasp accurately the relationship between spiritualism and
psychical research, on the one hand, and the scientific profession in Britain, on the
other" (Oppenheim,
Janet. Op. cit., p. 391).
ASSOMBRAÇÕES DO RECIFE VELHO:
Algumas Notas Históricas e Outras
Tantas Folclóricas em Torno do Sobrenatural no Passado Recifense.
Publicado em 1955. Expressão maior da
temática a qual no propomos neste trabalho, Assombrações
do Recife Velho já foi
matéria de artigo em periódico espírita e objeto de estudo em curso de Parapsicologia:
----"Espiritismo em
cativante Livro de Gilberto Freyre". De Elias Barbosa. Publicado no Anuário Espírita 1993, editado pelo Instituto de Difusão
Espírita - IDE - de Araras/SP (pp. 46-68).
Essa
preocupação com os vivos e com os mortos, era particular em Freyre na sua História da
Vida Privada da Sociedade Brasileira, La Nouvelle Histoire, onde percebe-se seu propósito
inicial de concluir a série de estudos em torno da sociedade patriarcal no Brasil, das
suas origens e do seu desenvolvimento com o ensaio Jazigos e Covas Rasas:
"Não é descabido, nem em Sociologia
nem em Psicologia Social, considerar-se o fato de que não há sociedade ou cultura humana
da qual esteja ausente a preocupação dos vivos com os mortos. E essa preocupação,
quase sempre, sob alguma forma de participação dos mortos nas atividades dos vivos. O
próprio Positivismo admite que "os vivos" sejam "governados pelos
mortos". A gente mais simples admite a participação dos mortos na sua vida sob a
forma de "visagens" ou "assombrações" em que as supostas
manifestações de espíritos de mortos às vezes se confundem com supostas aparições do
próprio Demônio. Ou de pequenos e médios demônios, desde que o mundo demoníaco tem
também sua hierarquia" (Freyre, Gilberto
- prefácio à 1ª edição de Assombrações do Recife Velho, 1951, in: op. cit., 3ª
edição. Rio de Janeiro, J. Olympio; Brasília, INL, 1974. p. xxix).
Os casos de
"Assombrações", alguns casos e algumas casas, nunca saíram da pauta de
interesse da opinião pública. Sempre sob um véu de mistério, insinuações, palpites,
testemunhas, estórias de visões de vultos, sombras, percepção de ruídos, luzes, cores
e odores enriqueceram a história oral e a literatura. O medo e a curiosidade se alternam
ante a possibilidade de circunscrição do fenômeno ou suposto fenômeno. A história do
Medo é a história de uma escala de valores da própria terminologia que foi sendo
empregada em ocasiões distintas: Fantôme, Spectre, Ombre, Esprit, Ectoplasme, Larve,
Revenant (Lecouteux, Claude.
1986):
"Notre langue dispose de plusieurs termes pour désigner ces morts inquiétants, mais
ils sont en général tenus pour synonymes alors qu'ils recouvrent des réalités
différentes. Tout le monde connait - fantôme -, qui évoque l'idée d'illusion et de
fantasmagorie, - spectre
-, auquel s'attache une notion d'effroi ou d'horreur, celle que provoque le squelette
ricanant ou le cadavre en decomposition, - ombre -, qui relève surtout du vocabularire
poétique et rappelle la dissolution du corps dans le trépas, - esprit -, qui reste vague et exprime la
perplexité humaine face à des manifestations inexpliquées, rangées dans le monde de la
parapsychologie - esprit, est-tu là? - Ectoplasme est récent et sert à désigner une
forme immatérielle, celle qui s'échappe du médium en transe, - Larve -, vocable hérité des Romains, n'est
plus guère usité dans son sens premier, celui de défunt privé du repos éternel pour
une raison ou une autre. - Revenant -, par contre, suggère immédiatement
le retour d'un mort" (Lecouteux,
Claude. Fantômes
et Revenants au moyen Âge. Paris: éditions Imago, 1996. pp. 7 - 8).
As notas
históricas e outras tantas folclóricas em torno do sobrenatural no passado recifense, de
Freyre, antecipam de muito a uma sociologia do sobrenatural. Escritos que precedem aos de Ariès (1975; 1977), Delumeau (1978), LeGoff (1981), Vovelle (1981), Lecouteux (1986), Schmitt (1994), dentre outros.
Assombrações
do Recife Velho, antecipação no gênero aos estudos e descrições do imaginário
urbano, social, citadino, por exemplo como ao de Jean Jacques GABUT Lyon Magique et Sacré: Histoires
et mystères dune Ville, 1993. Gênero, o de Freyre, de colocar as assombrações, o
sobrenatural num roteiro. Prático, Histórico e Sentimental de cidades brasileiras: os
Guias do Recife (1934) e de Olinda (1939). Estilo cativante na conversão do medo em
paixão. Paixão pelos nossos fantasmas, que seduzem-nos e se apropriam dos seus espaços
tal como nichos que lhe são sagrados.
Os mistérios que se prendem à
história do Recife são muitos: sem êles o passado recifense tomaria o frio aspecto de
uma história natural. E pobre da cidade ou do homem cuja história seja só história
natural (Freyre,
Gilberto, Op. cit., Introdução. p. 5)
ORDEM E PROGRESSO: Processo de
Desintegração das Sociedades Patriarcal e Semipatriarcal no Brasil Sob o Regime de
Trabalho Livre-Aspectos de um Quase Meio Século de Transição do Trabalho Escravo para o
Trabalho Livre e da Monarquia para República.
Publicado em 1959. Ensaio que encerra a
trilogia-série de estudos em torno da sociedade patriarcal no Brasil. Com 183 depoimentos
autobiográficos inovação metodológica de brasileiros nascidos entre 1850
e 1900.
Ao Espiritismo religioso ou
filantrópico juntou-se, no Brasil de Pedro II já homem de mais de cinqüenta anos
e talvez sob o estímulo da guerra com o Paraguai, que enlutou tantas famílias o
outro: o curioso do sobrenatural. Daí o
furor causado de setenta e tantos a oitenta e poucos, por professores que se
diziam mestres de Espiritismo moderno um deles, certo Pedro
dAmico. Ele e seu filho Vicente apresentaram-se ao público brasileiro em
exibições pelos teatros de que também participava uma Mme Felicie. Fizeram sensação.
Sobre muito Católico, a influência dessas exibições foi no sentido de avivar-lhe a
fé. Outros, porém, deixaram-se atrair para um Espiritismo de algum modo rival romântico
do misticismo clássico da Igreja, em seu modo de ser doutrina religiosa, ética e até
terapêutica e de interpretar o sobrenatural. (Freyre,
Gilberto. Op. cit., 4ª edição, 1990. p. lxxxi lxxxii).
Curioso é que, freqüentando
sessões de espiritismo do tipo puramente experimental sessões que foram
freqüentes no Brasil do fim do século XIX e do começo do atual até positivistas
deixaram-se impressionar por mensagens ou comunicações de mortos
seu conhecidos. Foi o que aconteceu certo dia com Martins Júnior, presente a uma dessas
sessões: convenceu-se de que lhe falara, sem ele saber explicar como, seu amigo Raul
Pompéia, que há pouco se suicidara misteriosamente (Freyre,
Gilberto. Op. cit., 4ª edição. 1990. p. lxxxii)
A
configuração de um Imaginário Espiritualista na República, se confunde com a própria
ordem republicana e positivista. Surgido na França em 1857, com a publicação de Le
Livre des Esprits (O Livro dos Espíritos) por Allan Kardec (pseudônimo bretão do
pedagogo Hippolyte Léon Denizard Rivail, discípulo de Pestalozzi, 1804-1869), O
Espiritismo como doutrina, só chega ao Brasil aproximadamente dez anos depois. Contudo, a
impresa veiculara muito antes, a partir de 1853, notícias sobre sessões experimentais na
Europa e que se tornariam bastante freqüentes em certos círculos brasileiros.
Sábado,
dois de julho de 1853, o Diário de Pernambuco registrava na secção Exterior
Correspondências do D.P (Paris, Vinte de Maio de 1853):
... Apesar das preoccupações
políticas um facto bizarro e que talvez não lhe he desconhecido, attrahe neste momento a
attenção curiosa do público, quero fallar do phenomeno das tabolas volleantes (tables
tournantes). Esta bizarra descoberta nos veio da América do Norte, porém aclimatou-se
logo em França, onde faz andar em roda todas as cabeças. Na hora em que lhe escrevo,
não se póde pôr pé em um salão, sem ver toda a sociedade em torno de uma mesa redonda
tendo cada um o dedo mínimo apoiado no do visinho, e esperando todos em silêncio que a
tabula queira voltar (Diário de
Pernambuco nº 145 ano XXIX, 02/07/1853. p. 02).
Ainda em 1853, duas transcrições se
destacariam no cenário internacional: A Dansa das Mesas de Cossart du
Courrier du Bas-Rhim Presse (Diário de Pernambuco, 11/07/1853. p. 02) e A Seita dos
Espíritos de Guilherme Depping do LIllustration (07/05/1853) Diário
de Pernambuco (11/07/1853. p. 02). Antecipando-se na veiculação do noticiário na
sociedade pernambucana do século XIX, acerca da coqueluche européia das Mesas
Girantes o Diário de Pernambuco também oferecia os primeiros anúncios de
médicos, de cirurgiões e de boticáros e, mesmo o grande alvoroço nos métodos de
aplicar remédio com a chegada em 1848 do médico sergipano Dr. Sabino Olegário Ludgero
Pinho, um dos maiores propagadores da Homeopatia na província. Médicos homeopatas se
interessavam pelas curas magnéticas e sonambúlicas que seguiam as idéias do médico
austríaco Mesmer (1733-1815). Junto com o Kardecismo e a Homeopatia, os tratamentos
médicos por magnetismo faziam sucesso. Outros grandes homeopatas se destacariam: Dr. Benoît Jules Mure
(1809-1858), introdutor da homeopatia no Brasil, Dr. José Alexandre Melo Moraes
(1816-1882) e Dr. Adolfo Bezerra de Menezes (1831-1900). Este último, cearense, deputado
federal por dois mandatos, abolicionista, seria conhecido entre os espíritas como O
Médico dos Pobres.
O fato é que entre a medicina e o
espiritismo, no Recife desde os dias das primeiras aparições ou das
primeiras receitas de Dornelas, que há namôro. No consultório de dois
médicos ilustres dos primeiros anos da República médicos e propagandistas da
abolição e da república: Os mesmos que freqüentaram por algum tempo as sessões na
casa do negociante D. Chegou a fazer-se espiritismo experimental ou científico...
Foi numa dessas sessões de consultório de médico que se passou o caso que vai aqui
fixado pela primeira vez: o encontro segundo a intepretação de alguns de
Raul Pompéia já morto com Martins Júnior ainda vivo. Pelo menos Martins, o homem do
Direito Positivo e da Poesia Científica, ficou convencido de que
com ele se comunicara, pelo lápis de um médium, o próprio Raul Pompéia. Foi um
assombro para o cientificista não só do Direito
como da Poesia (Freyre,
Gilberto. Assombrações do Recife Velho 3ª edição. 1974. pp. 58-60).
Eram
conhecidos os autores espíritas e a literatura mística: Flammarion, Léon Denis, Allan
Kardec e Swedenborg. Freyre recolhe depoimentos característicos, em alguns casos, dos que se diziam convertidos
após terem nascido católicos e aceitado o positivismo, ou dos simplesmente fascinados
com a fenomenologia (Modern Spiritualism): Ordem
e Progresso 4ª edição, 1990. pp. 257, 562.
Ao controle
experimental do sobrenatural, proposta positivista empreendida pelos primeiros adeptos das
manifestações ---- médicos, engenheiros, juízes, políticos, jornalistas,
escritores ---- segue-se a proposta institucional da vida religiosa, o
Espiritismo com suas associações beneficentes.
Em 1882 organizou-se a Federação
Espírita Brasileira, tendo entre seus fundadores o então major do exército, depois
marechal Francisco Raimundo Ewerton Quadros e da qual veio a ser parte uma
Assistência aos necessitados, ao lado de uma escola de médiuns (Freyre, Gilberto,
op. cit., p. 535).
As
configurações e registros falam a favor da presença de um imaginário espiritualista em
obras de Gilberto Freyre. Não seria possível existir um pluralismo Freyriano sem
preencher a lacuna temática do sobrenatural e do misticismo na sociedade brasileira.
A partir do
registro feito em quatro obras básicas: Casa-Grande & Senzala (1933), Ingleses no
Brasil (1948), Assombrações do Recife Velho (1955) e Ordem e Progresso (1959), tornou-se
evidente a funcionalidade do imaginário reconstituído em cada época. Sem distinguir a religiosidade de qualquer outro componente da
vida íntima brasileira, Gilberto Freyre não particulariza o irracional e seu
significado, os símbolos e suas representações, as festas e os ritos, o medo e o mito.
Todos estão envolvidos no processo de construção de uma identidade nacional, uma
interpretação da Cultura Brasileira. O sociólogo-antropólogo culturalista se antecipa
às Ciências do Imaginário, domínio de uma sociologia do sobrenatural, uma sociologia
do imaginário: do pensamento obscuro, do sonho, do fantasma das doenças mentais, dos
transes religiosos, do símbolo, do mito, dos rituais. Sem restrições ao selvagem, ao
primitivo e sua mentalidade, o itinerário do invisível é tão notório quanto os
espaços públicos, familiares e domésticos. Conjugando o perfil das Casas-Grandes e
Sobrados mal-assombrados com o de Fantasmas europeus, Castelos, Maisons Hantées e
Mulas-sem-cabeça, Gilberto Freyre exercitava uma trans-história numa significativa rede
de imagens sem pátria.
REFERÊNCIAS E
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