A esquina do tempo e os centros de Espiritismo
Sob ponto de vista legítimo do Movimento Espírita, a consideração a respeito do qual seja o seu papel e a sua atuação em pleno século XXI, depende do tipo de homem e de sociedade que nossos fundamentos
Em que moldura
cultural-ideológica se enquadrará nosso futuro após o desmoronamento do império
soviético, o colapso do socialismo real e, em conseqüência, o fim do equilíbrio
precário do balanço de poder entre as superpotências? Poder não exclusivamente no
plano das idéias militares ou econômicas, mas capacidade de, ao nível das ideologias
postas, formular o conceito de Homem e de Sociedade,
fundantes de quaisquer considerações que se pretenda fazer de um novo horizonte
ético-moral para os tempos que se avizinham.
Estaríamos ingressando na era da "Pax Americana"? Ou estaríamos caminhando em
direção a um mundo pluriscêntrico, com a formação de blocos ou mercados integrados
pelo umbigo da economia? Nem uma
nem outra perspectiva tem demonstrado aptidão para contribuir para um sistema mundial
mais harmônico e equilibrado.
Para resistir
à tendência onipresente de uma globalização imposta por necessidades de mercado e da
desumana competitividade comandada pelo capital, a construção de uma nova ordem social
baseada em
cooperação, respeito aos direitos humanos e participação cidadã de todos os atores
sociais nas decisões que afetam seu destino, torna-se uma tarefa urgente e inadiável.
Assim, é com
sincero otimismo que percebemos que na tessitura do mundo de hoje estão em gestação
vários movimentos envolvendo cientistas, filósofos, religiosos e educadores que se
inclinam para a formulação de um mundo diferente. Chamemos estas mundividências
renovadoras de "holistas", "ecológicas", "do terceiro
milênio", da "nova era" ou de "mundo de regeneração", ou
que outra denominação
possam vir a ter, o fato é que no seu âmago estão um novo conceito do homem e um novo
ideal de sociedade, alicerçados por conceitos revolucionários da Nova Física, por uma
inovadora concepção de Universo.
É impossível, motivados pelas precedentes reflexões, deixarmos de mencionar a sábia apreciação de Kardec em a Gênese, quando se refere à geração dos novos tempos: "A nova geração marchará, pois, para a realização de todas as idéias humanitárias compatíveis com o grau de adiantamento ao qual terá chegado.Caminhando o Espiritismo para o mesmo objetivo, e realizando suas finalidades, ambos se reencontrarão sobre o mesmo terreno. Os homens de progresso encontrarão, nas idéias espíritas, uma poderosa alavanca, e o Espiritismo encontrará nos homens novos, espíritos inteiramente dispostos a acolhê-lo".
Realmente, é a humanidade que, num processo endógeno de crescimento se arrisca a encontrar caminhos para o emblemático porvir, caminhos que dêem vazão a este processo de transformações.
E a pergunta
soa nítida: está o Movimento Espírita construindo conhecimento sobre as reais
transformações pelas quais passam o homem de hoje e a sociedade atual? De que forma nos
colocamos como uma alternativa, uma mão estendida à cultura contemporânea, sem
entendermos, com a profundidade necessária, quais são as vicissitudes que envolvem o
homem moderno e como se estrutura mundo que nos acolhe presentemente? Afirma Kardec,
na mesma Gênese retrocitada: "O Espiritismo toca todo o conhecimento".
Que pontes temos construído em direção aos movimentos que têm construído as
possibilidades de evolução planetária?
Lembremos
Herculano Pires quando nos alertava que se houvéssemos captado o verdadeiro significado e
papel do centro espírita, vale dizer, quais são suas reais tarefas e possibildades,
mudanças profundas já teriam sido alcançadas. Segundo o festejado professor, o
Centro Espírita se constitui no "point d'optique" do movimento doutrinário,
devendo para ele, convergir todas as atividades doutrinárias (ainda que respeitando
especializações, vocações ou
mesmo limitações). Devemos, pois, tornar nossas agremiações doutrinárias
verdadeiros Centros de Espiritismo (expressão cuja conotação é mais proativa e menos
adjetiva), potentes alavancas filosóficas e científicas, plenas de espiritualidade e de
entusiasmo
por alcancá-la, para coadjuvar o doloroso parto do mundo de regeneração.
Parafraseando
Millôr Fernandes, se nos faltar sensibilidade para interagirmos com as aspirações e
possibilidades que caracterizam o homem e o mundo nesta dobrada da esquina do tempo, sem
nos
colarmos à realidade para nos fazermos contemporâneos, muito em breve poderemos ser um
Movimento do milênio passado.
- Luiz Fuchs (SP)