Errar ainda é humano
(Considerações
psicológicas e espirituais acerca do sentimento de culpa)
A atitude do ser humano de censurar severamente a si mesmo
ocorre há séculos. Basta um só erro ou atitude da qual nos arrependamos para que
venhamos a nos autopunir ou esperar algum tipo de castigo divino. Desta forma, acabamos
por acumular em nosso íntimo angústias e pesares desnecessários, frutos de
experiências mal sucedidas que não foram vistas como aprendizado.
A longa faixa de anos obscuros pelos quais passamos na Idade
Média - período em que a Igreja pregava o temor a Deus e a punição severa de hereges
nas fogueiras e de pecadores nos fogos do inferno -, acabou por fixar no inconsciente das
pessoas a idéia de que todo erro deve ser punido. Esta espécie de "mandato"
parece nos acompanhar até os dias de hoje. São igrejas,templos e consultórios
psicológicos repletos de pessoas buscando alívio para um sentimento de culpa que insiste
em buscar punição.
Muitas pessoas, ao fazerem um exame de sua educação na
infância, poderiam verificar que esse desejo de castigo foi oriundo de uma educação
rígida e inflexível, a qual repreendia severamente qualquer atitude considerada errada
por parte da criança. Para outras, porém, essa mesma idéia pode não ter sido moldada
na vida presente, mas em um passado próximo ou remoto, no qual fomos consolidando a
intransigência com nós mesmos. Então nos perguntamos: como superar o sentimento de
culpa quando erramos? Como assimilar nossos erros sem buscarmos a autopunição como
remédio? Para Hammed, um benfeitor espiritual e estudioso do psiquismo humano, quando
sempre esperamos perfeição em tudo e confrontamos o lado inadequado de nossa natureza
humana, nos sentiremos fatalmente diminuídos e envolvidos por uma aura de fracasso.
Dessa forma, aceitarmos nossa falibilidade perante a vida
constitui-se uma tarefa inadiável. Como diz, ainda, o benfeitor árabe, "somos
propensos a cometer erros de cálculo, enganos são inerentes à condição humana".
Tal consciência e aceitação de nossa imperfeição somente ocorrerão, entretanto, no
momento em que reconhecermos nosso lado inadequado aqueles comportamentos e idéias os
quais não admitimos em nós, mas que ainda fazem parte de nosso ser, embora disfarçados.
Ao fazermos essa opção, passaremos a uma existência íntima
de tranqüilidade perante nossos erros, de maneira a compreendê-los e não mais
transformá-los em um calvário de dores e lágrimas, mas em um jardim florido, na qual
cada flor representará um aprendizado colhido. Ainda há muito a se fazer para que
superemos esse hábito tão arraigado em nossas mentes. Portanto, da próxima vez que
você perceber-se com sentimentos de culpa, diga a si mesmo: "Não sou uma
calculadora, sou um ser humano!"
- Adriano Oliveira (RS)
E-mail: adriano_oliveira22@hotmail.com