Direito a uma vida elegante
"Eu
gostaria de fazer algo para mudar o mundo e fazer todo mundo respeitar um ao outro , na
rua , na escola e na minha casa. Eu gostaria que o mundo fosse melhor. Eu sei que o mundo
é ruim , mas só Deus sabe o que faz".
(F.R.S. / 15 anos)
Fiz questão de começar essa reflexão trazendo um pequeno depoimento de um dos meus evangelizandos que mora em uma favela situada próxima ao Centro Espírita que trabalhava chamada de "Ilha do Joaneiro". Esta escrita conseguimos fruto de uma das atividades realizadas em sala de aula. Nota-se que F.R.S. é alguém que pensa , tem sentimentos , e o melhor ,sonhos na vida.
Vivemos em um país com certos paradoxos , fala-se tanto em desemprego para os pais de família que formam esta nação e por outro lado , tantas crianças e adolescentes se encontram trabalhando em jornadas clandestinas e fazendo "biscate" nas ruas de nossas cidades. Não estaria na hora de haver um remanejamento fazendo com que essas crianças fossem para as escolas e os seus familiares encontrassem emprego digno e decente , ocupando seus lugares?
Vários foram os adolescentes que no ano passado tiveram a necessidade de se ausentar das aulas que eu ministrava de evangelização/educação espírita para "ganhar um trocado", usando palavras deles mesmos. Para esses , eu colocava na freqüência falta justificada , pois tinha consciência que a vida está difícil e somos espíritos ainda encarnados, necessitando de lutar para viver.
Fico a refletir na colocação de F.R.S., dizendo da mesma forma:eu gostaria de fazer algo para mudar esta situação , retirando essas crianças das ruas e colocando em escolas , pois tenho a certeza que o trabalho precoce atrapalha os seus desempenhos escolares.
Sabemos que o "o trabalho é lei da natureza , por isso mesmo que constitui uma necessidade..."Livro dos Espíritos Perg/Resp.674.Partindo do ponto de vista do trabalho remunerado , concluo que ele é importante para que o Homem possa realizar o seu progresso espiritual e material , porém isso se dar quando ocorre dentro da idade permitida por Lei , pois não é salutar para o desenvolvimento de qualquer criança que ela aprenda a usar ferramentas e enxadas muito antes de pisar o chão de uma escola.
Em matéria publicada no Diário de Pernambuco em 20/10/1999 no caderno Vida Urbana , a partir de pesquisa realizada pela Equipe Técnica de Assessoria , Pesquisa e Ação Social(ETAPAS) com menores residentes nas Zonas Especiais de Interesse Social(Zeis) do Recife revelou que "o trabalho infanto-juvenil acontece mais fora de casa . Dos 496 entrevistados , 58,27% vendem alguma coisa na rua , exercem profissões e passam jogo do bicho. Sendo os meninos que continuam saindo mais de casa para "ganhar a vida"(58,69%) , enquanto que as meninas dedicam-se em maior quantidade aos afazeres domésticos (71%). A mesma pesquisa revela que são esforços não bem remunerados e que o pouco do dinheiro que ganham vão parar nos bolsos dos próprios pais ou nos gastos de suas necessidades.
Embora saiba que essa problemática é de interesse de toda a sociedade , escrevo em especial para nós espíritas , presidentes , diretores/coordenadores , evangelizadores-educadores , participantes do movimento espírita brasileiro , no sentido de trazermos para nossas discursões esse tema de real importância sobre "o trabalho Infanto-juvenil" , para que seja mais esclarecido nas reuniões públicas e debatido nas reuniões de estudos.
Que possamos refletir em conjunto , principalmente o departamento/coordenadoria de infância e junventude e o de assistência social da casa espírita , para que juntos encontrem alternativas visando minimizar esse quadro , onde crianças e jovens , possuindo o direito de estudar não podem realizá-lo , porque algo de mais urgente grita dentro deles :precisamos de comer , de vestir , de ter onde morar ...para depois irmos à escola.
Termino esse comentário trazendo um diálogo que me emocionou bastante , ao ver o Globo Repórter em abril de 1997 que tratou do tema "Menor trabalhador". Este diálogo ocorreu entre o repórter e Jeremias , uma criança de 10 anos que há dois anos já trabalhava no corte do sisal. Hoje Jeremias deve ser um adolescente com seus 13 anos.
"-Este trabalho aqui , você gosta?
-Gosto , mas não é muito não.
-Por quê?
-Porque a gente se fura.
-Você já se machucou?
-No pé , na mão.
Mesmo machucado , trabalhando sem parar , Jeremias não deixa de ser um sonhador!
-Como é que você imagina que vai ser o seu futuro?
-ELEGANTE!
-Elegante !? Como assim elegante?
-MELHOR!
Mas o que significa elegância neste pedaço esquecido do Brasil, Jeremias tão elegante no terninho costurado à mão pela própria mãe . Talvez não conheça a palavra , mas certamente , nos permitiria tradução , a elegância que ele procura , pode ser DIGNIDADE.
-O que você que ser quando crescer?
-UM CIDADÃO!"
É preciso unirmo-nos para fortalecer a voz de F.R.S(apesar de saber que o mundo está ruim),representante de tantas outras crianças e jovens do Brasil que possuem o direito de terem uma "VIDA ELEGANTE" e dizermos: Nós gostaríamos de fazer algo para mudar o mundo e fazer todo mundo respeitar um ao outro , na rua , na escola , em nossa casa.
- Gustavo Filizola (PE)