Que Dizes?

 

Tive hoje a curiosidade de pesquisar no dicionário a significação da partícula “de” em relação ao nosso idioma, buscando sua utilização mais adequada em determinado trecho do artigo que pretendia escrever. Grande foi a minha surpresa diante do resultado dessa verificação mais apurada, uma vez que essa expressão, tão comum no nosso vocabulário e milhares de vezes utilizada por qualquer um de nós durante a vida, se mostrou revestida de aplicações praticamente desconhecidas. Por motivos óbvios, devo apenas dizer que na consulta feita ao “Aurélio”, logo após a advertência de que se tratava de uma “partícula de larguíssimo emprego em português”, surgiram tantos sentidos e aplicações que suas explicações e justificativas encheriam dois espaços como este ocupado pelo presente artigo.

Isso leva a pensar na origem de um dos grandes males que a Humanidade enfrenta desde que passou a se servir da linguagem escrita e falada para exprimir suas idéias e emoções: a discórdia. A grosso modo, o significado da expressão “discórdia” está ligado a uma situação de desencontro entre corações, daí porque causa tanto mal ao órgão que simbolicamente transmite as emoções. É que por força da discórdia e seus inúmeros sinônimos (desavença, desentendimento, desarmonia, etc.) as pequenas e grandes guerras foram travadas, os mais leves e os mais torpes crimes foram cometidos, as mais passageiras e as mais grosseiras discussões foram travadas. Tendo a discórdia como principal responsável, lares são desfeitos, crianças se tornam órfãs, mulheres sepultam seus maridos.

Por não haver entendido uma determinada palavra, alguém pode formular uma outra pergunta ou emitir uma resposta de tal forma que o outro que a pronunciou seja levado a uma postura defensiva ou agressiva que desencadeia uma verdadeira tragédia. A história está cheia de exemplos que podem ilustrar essa situação. Muitas vezes, diante de um cadáver, aparece uma indagação: “por que foi que ele morreu?”. As justificativas beiram a irracionalidade e a loucura. Foram as coisas mais banais que levaram ao comportamento violento? Não. Algumas vezes não é bem assim que acontece. É que o agressor, por não haver entendido direito, se sentiu tão ultrajado com o que “ouviu” ou com o que “entendeu”, que seria capaz de jurar que está “coberto de razão”.

Na verdade, o que mais se encontra hoje em dia são os chamados “ruídos da comunicação”, um tipo de câncer que degenera a linguagem (escrita e/ou falada) e só traz problemas, encontrados tanto nos comunicados oficiais de uma embaixada como nos bilhetes singelamente emitidos. Se faz presente tanto no discurso empolado de um chefe de Estado que tem mísseis nucleares nas mãos, como no linguajar despretensioso de uma pessoa que não sabe ler e escrever e que conduz um revólver na cintura.

Ouvir mais, falar menos: eis a chave da compreensão entre os homens. Nada pior do que duas pessoas falando ao mesmo tempo, sem darem tempo reciprocamente de ouvir e se fazerem ouvidas. Jesus de Nazaré recomenda que sejamos “mansos como as pombas e prudentes como as serpentes”, enquanto que a Doutrina Espírita nos esclarece que a vontade é para ser exercida em sua plenitude, inclusive no que se refere ao curso que damos às nossas palavras.  

Diante de tudo isso, parece que o caminho mais fácil para a solução de tantas dificuldades é a adoção de uma postura que está no outro extremo da discórdia: a concórdia. Não uma concórdia pré-fabricada, cujo sorriso tem aparência superficial. Mas a concórdia que é fruto de uma disposição íntima para o diálogo fraterno; que é a expressão da vontade interior de compreender o semelhante; que traduz a nossa condição de seres racionais. A partir daí a vida fica mais fácil, tanto para os vizinhos que deixaram de se falar, como para os países que estão em estado de guerra.

Marcus Vinícius Ferraz Pacheco  (PE)

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