Do pluralismo cultural
numa epistemologia metafísica: Dimensões
*Trabalho
apresentado no Painel Temático: A Atualização do Espiritismo nas áreas Epistemológica
e Paradigmática. XVIII Congresso Espírita Pan-Americano. 11 a 15/10/2000. Porto
Alegre/RS, Brasil.
Ne pleure-t-on pas la mort de siens parce quon pense
quìls sont privés de tout ce que la vie peut offrir? Supprime cette idée, le
deuil sera plus supportable; car ce nest pas sur son propre malheur que
lon sapitoie: on en souffre, certes, on a le coeur serré, mais les plaintes,
les gémissements, les larmes exprimant laffliction sont dus à la pensée que
lêtre aimé ne goûtera plus aux joies de la vie et en est affecté. Ce que nous
ressentons lá est dordre purement intuitif, aucun cas rationnel ni culturel... Mais
ce qui, dans le secret de notre instinct, prouve de façon éclatante limmortalité
de lâme, cest que tous les hommes ont en eux linquiétude et une
inquiétude extrême de ce quil y aura après la mort(Cicéron. Devant
la Mort, Tusculanes Livre I. pp. 44-45).
Sem qualquer exitação, firmei-me ante à sugestão intuitiva,
seletiva, de a partir de certos autores e textos, proporcionar-lhes uma introdução ou o
que lhe corresponderia, à temática geral do painel: A Atualização do Espiritismo nas
áreas Epistemológica e Paradigmática.
Os quatro primeiros autores/textos: Marcus Tullius Cícero
Cicéron (106 a.C. 43 a.C) Tusculane 1re (Tusculanae,
Tusculana. De tusculum, hoje Frascati). Tratado Filosófico em cinco partes, as Tusculanas
são questões independentes umas das outras: Ensinar ao homem os meios de alcançar a
felicidade, livrando-se dos obstáculos que se lhe opõe; tranquilizar contra os
horrores da morte; Ensinar a tolerar com paciência as dores corporais; Fazer-se
superior aos acontecimentos capazes de afligi-lo; vencer suas paixões.
Servi-me da 1ª Tusculana (1re Tusculana Devant la Mort):
a morte é um mal? Não é do ponto de vista da Imortalidade da alma.
- Francis Bacon: (1561-1626) Du
Progrès et de la promotion des savoirs (publicado em inglês, 1605/1ª tradução
francesa em 1624). Ao tempo de Bacon, o
- Galileu Galilei (1564-1642) - Ciência e Fé.
Textos de Galileu do período de 1613 a 1615, que precedem a condenação do sistema
Copernicano pela Igreja Católica (trad. de Carlos A.R. do Nascimento).
- Bertrand Russell (1872-1970) Science et
Religion (trad. do inglês por Philippe-Roger Mantoux). Quatro séculos de conflitos entre
teologia e ciência.
Sem qualquer configuração intencional, prévia, os conflitos,
aflições, perspectivas e argumentos destes e tantos outros autores, consideram a
conceptualização do conhecimento, delimitação e situação dos saberes.
Popperianamente, traduzir-se-ia no rol da discussão sobre as origens do Conhecimento e da
Ignorância (ref. a Karl R. Popper [1902-1994], 1982; 2ª edição):
O conhecimento não parte do nada de
uma tábula rasa - como também não nasce da observação; seu progresso consiste,
fundamentalmente, na modificação do conhecimento precedente. Embora algumas vezes
possamos progredir graças a uma observação casual (em arqueologia, por exemplo), a
significação das descobertas que fazemos depende em geral do seu poder de modificar as
teorias precedentes (POPPER, 1982. p. 56).
A noção pré-formática (conhecimento/pré-conhecimento) que
considera as potencialidades humanas (visão otimista do poder do homem de discernir a
verdade e adquirir conhecimento), contrasta com a descrença no poder da razão humana, na
capacidade do homem de discernir a verdade. Contraste entre pessimismo e otimismo
epistemológico (POPPER, 1982, p. 34).
Contraste entre Razão e Afetividade, onde se constrói uma
mentalidade Pré-lógica, Primitiva (Lévy-Bruhl, Lucien-Le Surnaturel et la Nature dans
la. Mentalité Primitive, 1963). Problema verificado por muitos filósofos desde a época
de Bacon: Ciência (observação/Método indutivo), Pseudociência e a Metafísica
(método especulativo/antecipações mentais).
Em 1860, Allan Kardec (pseud. de Hippolyte Léon Denizard
Rivail [1804-1869]) na Introduction à lÉtude de la Doctrine Spirite de Le
Livre des Espirits, concebe (texto a partir da 2ª edição. Edição definitiva,
1860):
Pour les choses nouvelles il faut de mots
nouveaux, ainsi le veut la clarté du langage, pour éviter la confusion inséparable du
sens multiple des mêmes termes. Les mots spirituel. Spiritualiste, spiritualisme ont une
acception bien définie; leur en donner une nouvelle pour les appliquer à la doctrine des
Esprits serait multiplier les causes déjà si nombreuses Lamphibologie. En
effet, le spiritualisme est lopposé du matérialisme; quiconque croit avoir en soi
autre chose que la matiére est spiritualiste; mais il ne sen suit pas quil
croie à lexistence des esprits ou à leurs communications avec le monde visible. Au
lieu de mots spirituel, spiritualime, nous employons pour désigner cette dernière
croyance ceux de spirite et de spiritisme, dond la forme rappelle lorigine et le
sens radical, et qui par cela même ont lavantage dêtre parfaitement
intelligibles, réservant au mot spiritualisme son acception propre. Nous dirons donc que
la doctrine spirite ou le Spiritisme a pour principes les relations du monde
matériel avec les Esprits ou êtres du monde invisible. Les adeptes du spiritisme seront
les spirites ou, si lon veut, les spiritistes(KARDEC, Allan. 1994, p. I).
A preocupação de Kardec é pertinente à expressão
fenomenológica da época e à imemorialidade de princípios básicos reunidos agora sob
um códice doutrinário.
Curiosamente, na 1ª edição de O Livro dos Espíritos (Le Livre
des Esprits, Paris; E.Dentu Librairie, 1857),o texto Introdução ao Estudo da
Doutrina Espírita (Introduction à LÉtude de la Doctrine Spirite
Réponse a Plusieurs Objections), de Kardec, situa o Espiritismo num sistema de crença,
primordial para sua concepção (só a partir da 2ª edição constará Filosofia
Espiritualista no Cabeçalho de O Livro dos Espíritos):
... Nous dirons donc que la doctrine spirite
ou le spiritisme consiste dans la croyance aux relations du monde matériel avec les
esprits ou êtres du monde invisible. Les adeptes du spiritisme seront les spirites, ou si
lon veut les spiritains(KARDEC, Allan. Le Livre des Espríts. 1ª édition.
Texte bilingue. Canuto Abreu. 1857/1957. p.1).
Na construção de uma espistemologia otimista (Popper. Ob. cit.,
p. 34), os princípios básicos da doutrina espírita, princípios universais, são
encontrados sob idéias, valores, concepções e expressões diversas em povos, culturas
distintas, apontando para os precursores como uma espécie de fonte de conhecimento.
Estes, os precursores, nos mais diferentes domínios, derivam de outros, numa cadeia
sucessiva:
... En effet, si le spiritisme était fondé
sur la pensée préconçue de lexistence des Esprits, on pourrait, avec quelque
apparence de raison, douter de sa réalité; car si la cause est une chimère, les
conséquences doivent elles mêmes être chimériques; mais les choses ne se sont
point passées ainsi (KARDEC, Allan, Quest-ce que le spiritisme? 1988. p. 49).
Um dos maiores críticos de Popper, Thomas Samuel KUHN
(1922-1996) em seu clássico A Estrutura das Revoluções Científicas (1962), defende a
tese do desenvolvimento típico de uma ciência (disciplina) a partir da seguinte
estrutura:
Fase
pré-paradigmática - ciência normal crise revolução
nova ciência normal nova crise nova revolução.
CHIBENI (1994) em produtivo trabalho, analisa a visão Kuhniana
de Ciência, contrastando com outras concepções (Popper; Lakatos; Feyerabend) e
aponta a doutrina espírita como Paradigma científico, Paradigma criado por Allan Kardec.
Kuhn considera paradigmas, as realizações científicas universalmente reconhecidas que,
durante algum tempo, fornecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de
praticantes de uma ciência (1987:13). Sem que se discuta a coerência ou não da
aplicabilidade da tese de Kuhn à doutrina espírita, construção de Paradigma com ou sem
revoluções científicas e anomalias, situações de crise, não há como se fugir da
discussão de uma pluralidade cultural que se impõe pela ordem mundial dos saberes não
localizados: Por exemplo, emergência do Paradigma ambiental oposto ao Paradigma
naturalista, necessitando de uma metafísica da natureza (Naturphilosophie). Veja-se,
dentre outros, ROHDE (1996), e o nº temático da American Anthropologist (ref. na
bibliografia/Periódicos), ainda FRANKLIN (1995) em artigo no Annual Review of
Anthropology (ref. bibl. cit).
Pensador crítico da cultura, Kardec fez da Revue Spirite /
Revista Espírita 1858/1869) Journal dÉtudes Psychologiques
expressão maior da vida privada espírita do cotidiano das correspondências, opiniões,
leituras, embates, relatórios e comunicações da Sociedade Parisiense de Estudos
Espíritas (S.P.E.E.). O esforço em não institucionalizar o conhecimento, conhecimento
espírita, a partir da exposição de seus princípios básicos, seria equivalente à
compreensão da dimensão do conceito antropológico de cultura desde Tylor (1871) às
etnociências (Science as Culture / Cultures of Science). O que se compreenderia em
Bergson (1978) de Religião Estática a Dinâmica e em Camargo [WEBER] Kardecismo e
Umbanda: Uma Interpretação Sociológica, 1961 de Religião Tradicional a
Internalizada (Racionalizada). Todas essas transições têm seus imperativos para
função de comunicação nas realidades sociais vigentes, por exemplo (parcerias,
intercâmbios). Não se pode evitar a reflexão e reconstrução críticas da trajetória,
de formas ditas elementares do transcendente (Epistemologia Metafísica) ao otimismo de
uma revelação consoladora, sem o pluralismo das diferenças (exercício da convivência
com a divergência) ou em se resistindo, se assiste à eclesificação do fato consumado
(Templo do Eu no Culto do Espírito).
REFERÊNCIAS
E OUTRAS FONTES
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