Os avanços da Biologia
perante o Espiritismo
O Espiritismo surgiu em uma época em que a Ciência alcançava notáveis feitos. O final do século dezenove assistia às descobertas das ruínas dos Incas, à decifração dos hieróglifos egípcios e às escavações dos templos gregos, a mecânica impulsionava a indústria com suas descobertas, o microscópio seria o instrumento de perquirição da Biologia, levando o homem a devassar seu corpo, para curar doenças e buscar suas origens.
A época de Kardec é a época de Darwin, é um pouco antes da época de Mendel, mas é a época da glória da sociedade burguesa, do caldeirão de filosofias de exaltação do homem, que nos levaria a duas grandes guerras, sem que perdêssemos a empolgação com as conquistas, tornando a Ciência, definitivamente, possessão do homem, que o aproximava em pés de igualdade à divindade.
Charles Darwin, talvez o homem de Ciências mais genial de sua época, não inventou a idéia que o homem descende do macaco, derrubando a mitologia judaico-cristã da descendência adâmica.Coube a ele muito mais, além de concluir que o homem e o macaco tiveram, em alguma ocasião temporal, ancestrais comuns, do mesmo tronco, que depois se diversificariam naquilo que coube a ele desenvolver com primazia, a seleção natural. Seleção natural não é a lei do mais forte, mas sim a constatação que os seres evoluem graças a mutações aleatórias em seu interior, capazes de fazê-los modificar sua interação com o meio externo, tornando-os, nessa interação, mais aptos a sobreviverem. As idéias de Darwin influenciam não apenas a Biologia, mas mesmo a Filosofia, a Psicologia, a Sociologia.
Muitos se utilizam de sua teoria com fins notadamente racistas e muita polêmica gerou no meio acadêmico o livro A Curva de Bell, uma abordagem racista, que associa a miséria de negros e hispânicos a questões raciais, de seleção de uma raça mais apta, no caso os brancos caucasianos, sobre as demais. Os autores dessa obra esqueceram do grande legado de Darwin, que diz: Se a pobreza e a miséria de um homem for causada não pelas leis da Natureza, e sim por nossas instituições, grande é nossa sina.
Separados pelo distante tempo interior, pois se Darwin se interessava
pelo palco da Ciência, o monge Gregor Mendel, que por seu amor à
Botânica e acurado senso científico descreveu as leis da hereditariedade e as regras por
elas seguidas, permitiu ao homem a estruturação da idéia de transmissão de um sistema
de memória capaz de determinar características dos pais aos descendentes, que hoje
sabemos estar em sequências de DNA que chamamos genes. A genética começa com Mendel mas
apenas o descobriu no século XX, apesar de seus trabalhos datarem do final do século
XIX, mais precisamente 1885.
Com a caracterização que os cromossomas eram formados de DNA, e que esse era composto de ácidos nucleicos, dois pares desses ácidos nucleicos, que suas sequências formavam uma espécie de alfabeto que codificavam a formação de componentes das proteínas, gerou-se uma corrida para determinar-se a forma estrutural do DNA. Coube a Linus Pauling a descoberta que as proteínas tem estrutura tridimensional e algumas delas uma estrutura helicoidal, mas o mérito quanto ao DNA coube à dupla Watson e Crick, que descreveram o DNA como dupla-hélice, que se abria na sua face interior para que fosse feita a leitura do alfabeto genético.
A sequência de nucleotídeos que formam cada um dos vinte aminoácidos essenciais do
organismo humano, seguida do avanço na codificação das sequências genéticas e
localização dos genes nos cromossomas, abriu as infindáveis possibilidades de pensar e
sonhar que a mente humana é capaz. Os genes tornaram-se explicações de tudo o que
ocorre no homem, quer em seu organismo quer em sua vida de relação, quer ainda em seu
estado mental, sua capacidade de amar, de ser egoísta ou altruísta. Poderosos, os genes
eram o código de Deus nos seres vivos que agora o homem era capaz não apenas de
identificar, mas de manipular.
Conta-nos a mitologia grega que Zeus, o supremo deus do Olimpo, vendo que Prometeu, que
criara os homens, detinha enorme prestígio e poder, desceu à terra em seu carro de fogo,
e tirou dos homens a luz, num castigo ao titã e às suas criaturas. Em meio à escuridão
que reinava, partiu em rota ascendente ao Olimpo, mas Prometeu, com um graveto, rouba o
fogo do carro de Zeus, devolvendo aos homens aquilo que lhes havia sido tirado. Os deuses
ficaram furiosos e prepararam vingança. Coube a Afrodite criar Pandora, uma mulher
belíssima que trazia em suas mãos uma caixa, onde todas as pragas que abateriam os
homens estavam comprimidas, saindo assim que fosse a tampa retirada. Não aceitando o
presente de Afrodite, Prometeu, o que pensa antes, talvez não imaginasse que seu irmão,
Epimeteu, o que pensa depois, ficasse encantado com Pandora e pedisse o presente a
Afrodite. Recebeu Epimeteu a Pandora, junto com sua caixa, que, depois de aberta, espalhou
sobre os homens todas as pragas e maldições ainda hoje conhecidas e que nos afetam. Da
caixa de Pandora, a última a sair será a Esperança.
Impossível não relacionar o presente recebido por Epimeteu, principalmente a caixa que
Pandora trazia, com o momento em que vivemos no que tange às conquistas da Biologia.
Desde a década de sessenta que a genética molecular alcança progressos incríveis no
diagnóstico de doenças raras, desde o período intra-uterino. Muito se fala em
tratamento gênico de doenças, bastando identificar o gene deficiente e substituí-lo.
Até hoje, mesmo conhecendo os genes de doenças letais, ainda não se foi capaz de
promover terapia gênica adequada. Muita expectativa se criou entre os portadores de
Fibrose Cística, mas ninguém foi curado por terapia gênica. A manipulação gênica é
a proposta de avanço da ciência a ser analisada nessa palestra, pois assim pude entender
a partir da correlação entre fertilização in vitro, clonagem e transplante de
órgãos.
Para entendermos um pouco da caixa de Pandora aberta a partir daquilo que os colegas médicos da Associação Médica Católica da Inglaterra e Gales chamam de o homem brincando de ser Deus.
Desde a década de 50 os investimentos na Genética Molecular são
enormes, não faltando verbas de pesquisas e isso propiciou a capacidade de sequenciar e
manipular genes. À época do projeto Genoma Humano, especulava-se muito sobre as
descobertas que estariam no cromossoma 22, pois dali sairia a cura da Esquizofrenia, a
doença mais cara do mundo, segundo a Organização Mundial de Saúde. Nada se descobriu,
para a frustração de muitos cientistas. Isso não impediu de sequenciar-se genes
importantes e outros ainda pouco conhecidos. Questão de grave impacto, quando tratamos de
manipulação gênica, é a evidência de que permanece vivo o Eugenismo, que é a
tentativa de aprimoramento da raça humana. Essas idéias marcaram dolorosamente o homem
durante o Nazismo, quando atingiu o clímax no sacrifício de milhares de judeus, na quase
erradicação dos povos ciganos, no uso de cobaias humanas em experiências somente
permitidas com animais.
A eugenia é uma idéia atuante na mente de alguns brilhantes cientistas que, ou não se apercebem do risco em promover tal idéia, pelas consequências que o homem já experimentou, ou simplesmente desconsideram qualquer risco em favor de seus ideais. O racismo a partir dos estudos científicos sempre foi encoberto por elaborações estatísticas complexas, que manipulavam dados em favor de determinado objetivo, ou era encoberto por visão viciada do pesquisador. O conhecido psiquiatra forense italiano, que se consagrou no Espiritismo a partir de sua conversão, Césare Lombroso, defendia que os criminosos tinham um crânio típico, menor em volume, que se apresentava exteriormente pela fronte pequena, mãos e pés grosseiros e sulcos faciais acentuados.
Assim eram os criminosos que Dr. Lombroso conheceu, alguns cérebros que analisou, mas são características de uma raça explorada pelos europeus, que viveram à margem de qualquer conquista social na Europa do século passado. Hoje a Eugenia está presente nas propostas de concepção a partir de Fertilização In Vitro após cuidadosa análise genética dos embriões, descartando os menos aptos em favor dos que os comprometidos com a seleção de raça pura chamam de amostra selecionada. Fazem às avessas aquilo que a Natureza faz de modo aleatório, escondndo uma sabedoria capaz de ser analisada apenas sob as vistas da Moral, despida de moralismo barato, mas sustentada por uma visão que garanta ao homem a autonomia e a dignidade desde as formas iniciais de vida. Autonomia e dignidade, devendo ser respeitadas no homem desde sua fase embrionária, faz com que a manipulação gênica de embriões fira profundamente esses princípios chave da Bioética? Caso consideremos o embrião como dotado de vida, a partir de quando isso se dá legalmente? A Inglaterra, tentando resolver essa questão do ponto de vista legal mas sem comprometer-se em sua regulamentação, talvez por temor de perder a corrida da biotecnologia aplicada a embriões, determinou que qualquer manipulação do embrião deva ser feita somente vida, mas a partir do 6º dia o embrião já não mais é viável para o implante no útero.
Ao
manipularmos genes, bucando aprimoramento de raças, gerando vidas que são sacrificadas a
centenas para preservar uma vida, até que ponto nos comprometemos nessa brincadeira de
fazer de conta que somos Deus? É inegável a necessidade do aprimoramento científico,
mas não justifica o sacrifício de vidas humanas quando alternativas outras se visíveis
e viáveis. O simples fazer para mostrar-se ao mundo lembra-no muito a sentença do
Eclesiastes: Vaidade das vaidades, tudo no mundo é vaidade, não existe nada de
novo sob o sol.
O
Espiritismo traz o conceito transcendente de vida, que não se inicia
no berço, nem se encerra no túmulo. Se a visão muçulmana, expressa pelo geneticista
radicado na Inglaterra, Abid Sharim, permite a manipulação gênica de embriões por
entender que a alma se liga ao embrião a partir do 40º dia, muito ainda temos que
avançar, inclusive para determinar quando a ligação do espírito com o corpo
efetivamente se dá no estrito senso da palavra ligação. Os genes não transmitem
caráter, não dão as características da alma. Quando o projeto genoma demonstrou que
temos poucos genes a mais que os animais vulgares, como camundongos, muitos deixaram o
queixa cair. Aqueles que afirmaram em alto e bom tom: Dêem-me o programa genético
que farei um homem, pouco falaram, agora já sem o tom bravatoso. Muitos pensaram
ter descoberto o Espírito, não para exaltá-lo, mas para rebaixá-lo a epifenômeno,
não do cérebro, mas resultante dos genes. Caindo na realidade, a programação genética
serve apenas para estocar informações para o maquinário celular. Ela não explica as
sinapses cerebrais, pois precisaríamos de um número de genes três vezes maior que o
contido em nosso DNA para justuficar as sinapses já conhecidas, que contam-se a menos de
um terço das que possivelmente existam. DNA é molécula morta, tanto é que é
encontrada em fósseis, sem o maquinário celular nada pode fazer. Na verdade, quem faz é
a célula, esse ser microscópio quem utiliza as informações dos genes no processar de
seu metabolismo. André Luiz, em seu livro Evolução em Dois Mundos, dá ênfase à
célula, um non-sense na opinião de muitos, um anacronismo, na opinião de outros, mas
uma sabedoria, na opinião de poucos. Naquela obra, afirma o autor que no campo de estudos
a que ele se filia,
naquele estágio de conhecimento que se encontravam, estavam eles
estudando a estrutura mental da célula. Para ilustrar um pouco as repercussões da
capacidade obtida, que são extremamente complexas, comecemos com o episódio ocorrido com
o casal do estado do Colorado, nos EUA, pais de uma filha que apresentava Anemia de
Fanconi. Essa doença rara e grave é passível de cura através de transplante de medula
óssea, mas o sucesso dobra de 40% para 80% quando o transplante é feito a partir de
células do cordão umbilical de doador plenamente compatível. Os pais de Molly haviam
tentado, atravésde Fertilização In Vitro, por quatro anos, um embrião geneticamente
compatível para salvar Molly. Adam Nash nasceria após ser o escolhido entre 15
embriões, o único capaz e fornecer as células do cordão umbilical que salvaram Molly.
O que serve de reflexão é que uma apurada técnica obtida a partir de sérios e
prolongados estudos, permitiu que, para salvar-se uma vida, quase cem embriões fossem
gerados, testados e sacrificados, pois apenas um foi implantado e mesmo assim com a
finalidade única de servir como doador de células-tronco capazes de dobrar a taxa de
sucesso na tentativa de cura de sua irmã. Por mais que o médico responsável por esse
tratamento diga que o sucesso obtido justifica qualquer sacrifício, mesmo de vidas, não
se pode deixar de lembrar que estudos mostram que células-tronco obtidas de adulto podem
se diferenciar e se comportar adequadamente, além do que já existem bancos de
cordões-umbilicais, extraídos de fetos gerados com os fins habituais ou acidentais, que
podem fornecer material àqueles que são compatíveis imunologicamente. Outro caso que
chamou a atenção da mídia, encontrando repercussão, foi o de uma jovem mulher, de
pouco mais de 30 anos, portadora de grave síndrome neurológica, de origem genética,que
submeteu-se à Fertilização In Vitro, gerando um número grande de embriões, que foram
geneticamente testados para a doença que a mãe era portadora, e os afetados foram
descartados, os pouquíssimos preservados foram congelados para uso futuro, pelo desejo
ardente dela de deixar descendentes.
Os testes
genéticos muitas vezes são oferecidos como um pacote para descobrir-se as doenças que
acometerão o indivíduo no futuro, numa clara enganação de incautos, quer pela
imprecisão dos testes, quer pela não seleção dos testados, quer pelo desconhecimento
que o gene não gera por si só a doença. Muito se tem explorado, muito dinheiro tem sido
gasto para alimentar pavores infundados ou certezas cada vez mais incertas, em nome do
ganho, da celebração da fama.
A genética
nunca esteve em tamanha evidência entre os leigos e não iniciados quanto a partir de
1997, ano em que foi anunciado, na
Escócia, o nascimento de Dolly, primeiro ser vivo clonado através de
uma técnica chamada Transferência de DNA. Os cientistas recolheram o material genético
da mãe de Dolly e implantaram em células mamárias cujos núcleos foram esvaziados
visando receber o material que formaria Dolly. A equipe do Dr. Willmutt formou 277
embriões e apenas um mostrou-se capaz de desenvolver, no caso a ovelha tão famosa.
Com Dolly o vislubre de clonar-se humanos passou a tornar-se realidade quase palpável. Número crescente de publicações dão conta da clonagem de vários animais de laboratório, a partir da transferência de DNA, gernado já uma estatística de taxa de sucesso de 2%, com um gritante fracasso de 98%. Interessantemente, desses 2% de sucesso, um número grande deles apresenta doenças graves e já são descritas pelo menos 150 doenças entre os animais gerados por clonagem através da transferência de DNA. O porquê da alta taxa de fracasso ainda não se sabe.Se o clone humano virou realidade entre nós a partir da novela, a China anunciou, mesmo antes do médico italiano Severino Antinori, que tinha dez clones humanos. Estabeleceu-se uma corrida para saber-se quem será o primeiro a mostrar seu clone humano, um troféu que terá o prêmio não apenas da opinião pública, mas o grave peso político.
A técnica que fez gerar Dolly é aparentemente simples, mas a pífia
taxa de sucesso mostra como é complexo o processo. Quando o
espermatozóide funde-se ao óvulo, descarregando seu material genético a fundir-se com
aquele da célula receptora, esse par de cromossomas diferentes entre si, partindo de um
estado de repouso engendra no mecanismo celular um processo de rápida multiplicação
celular, o que virá a ser um embrião.
Esse processo de reprodução a partir de cromossomas em repouso garante um risco mínimo de alterações nos cromossomas que, em alguns casos, geram doenças como a Síndrome de Down e em outros são incompatíveis com a vida. Na técnica de clonagem, uma célula receptora tem seu núcleo vazio preenchido pelo material genético do doador. Não se tem garantia de que esses cromossomas estão em estado de repouso e o fato de se ter uma probabilidade elevada de estarem atividade, faz surgir o alto índice de fracasso e, mesmo nos poucos casos de sucesso, o risco de alterações cromossomiais é grande. Isso nos leva fatalmente à pergunta para mais essa questão saída da caixa de Pandora, supondo o sucesso e a aceitação plena da clonagem humana, que tipos de desenvolvimento anormal deveremos aceitar? Aceitar para quem?
Não esqueçamos que não estamos formando um objeto, mas estamos diante de uma vida
humana que surge. Ainda refletindo sobre o que vai saindo da caixa de Pandora, superando
essas questões graves sobre o desenvolvimento do embrião humano clonado, caímos em
questões éticas mais graves. Se uma mãe tem um filho morto em acidente, mas dele é
retirado tecido vivo, qual o limite a ser aplicado ao desejo dessa mãe em fabricar um
clone dessa criança? Por mais que saibamos o processo gera corpos, e não espíritos,
como mais adiante iremos debater, se é válido o desejo de substituir o filhomorto por um
geneticamente quase idêntico, será válido o desejo de outra mãe querer ter um filho
sobressalente congelado no nitrogênio líquido, pronto para vir ao mundo após implante
em um útero receptor, em caso de morte ou doença grave do original? Existe fronteira
demarcada entre o desejo de uma e de outra?
Continuando o raciocínio, um homem casado, pai de três filhos, por
algum motivo é levado a clonar um embrião a partir de seu material
genético, quem seram os pais de direito da criança, uma vez que
geneticamente os pais seram os pais daquele que forneceu o material
genético. Essa criança não terá irmãos genéticos, pois não
compartilhará da mesma carga genética dos irmãos. Terá ele poder
successório sobre o doador caso a esposa dele, o doador, não conscinta com a adoção?
Clonar
seres humanos com finalidades reprodutivas tem gerado tanto problema atualmente que quase
já não se fala nesse tipo de clonagem, não ser nas saudades da novela, pois a moda
agora é falar-se em clonagem terapêutica, a utilização da clonagem para que se formem
doadores de células-tronco, que se transformarão em qualquer tecido ou órgão humano.
Chama a atenção que, em Março de 97, um mês após o anúncio de Dolly, o Senado
Norte-Americano convocou reunião através de um comitê específico de Saúde pública,
seguindo também a convocação presidencial e a instalação de um Comitê Nacional de
Bioética. Tratando de clonagem reprodutiva, representantes das indústrias de
biotecnologia anunciaram que não tinham interesse na clonagem reprodutiva, mas na
utilização da técnica para clonagem terapêutica, para a fabricação de órgãos.
Como falamos de indústrias, falamos de venda de tecnologia, ou seja de um comércio de seres vivos. O processo de clonagem terapêutica visa formar embrião de cerca de oito dias de vida, onde se apresenta a fase de blastocisto, momento em que o embrião está repleto de células-tronco, objeto dos almejados transplantes de órgãos. Até aqui o processo é o mesmo da clonagem reprodutiva, mas a partir dessa fase o embrião tem seu desenvolvimento interrompido, passando a ser apenas um rico banco de células. Como cada célula se diferencia em tecidos específicos não se sabe, mas já foi possível fabricar-se tecido renal implantando-se células-tronco em rim de bovinos. Essas células desenvolveram-se formando um aparelho renal.O processo pelo qual ocorreu ainda é uma incógnita.
O que é mais grave é que a clonagem terapêutica será oferecida a um
custo, pois é uma técnica que está sendo desenvolvida com fins
puramente comerciais, acima da questão humanitária, além do que, saindo mais um
problema da famosa caixa, cumpre-nos questionar a questão venda de órgãos, no já
existente mercado de órgãos humanos.
Quem não se lembra da prostituta de Os Miseráveis, que, para manter
a filha após o desemprego, vende inicialmente seu corpo, uma vez
adoecida, vende seus cabelos e, por fim, os dentes. Victor Hugo acenava para um mercado
real, que hoje existe sob a forte condenação dos preceitos éticos, mas que tende à
legalização através do reconhecimento de patentes, não de órgãos ou células
humanas, pois são proibidas, mas de técnicas de clonagem, de armazenamento de embriões
e de manipulação desses embriões para o desenvolvimento de órgãos e tecidos.
Um número crescente de transplantes de coração se dá pelas
consequências dos processos isquêmicos, como a doença arterial
ateromatosa, que gera angina, infarto e insuficiência do coração. As
causas desses problemas são multifatoriais, a incidência deles é
crescente, apesar das várias intervenções sobre a população, ao longo
dos anos. Ter a possibilidadede um coração reserva a desenvolver-se se necessário for
é consoladora talvez, mas nos lembra muito o caso de Molly, que teve a vida salva por seu
irmão, que para poder nascer para esse único objetivo, viu quase 100 outros embriões
serem descartados.
Os transplantes de órgãos realizam-se com uma taxa de sucesso
importante, chegando, no caso de transplante de rins, a uma sobrevida
de 85% em dez anos, isso desde a década de 80, graças à descoberta de uma substância
imunossupressora chamada Ciclosporina. Essa droga revolucionou os transplantes, mudou
todos os parâmetros de sobrevida.
Os argumentos a favor da clonagem terapêutica pesam pela escasses de doadores em todo o
mundo mas o peso de se usar órgãos como mercadorias os prudentes, engana os afoitos.
Continuando a sair da caixa, mais uma questão se põe à reflexão: uma vez desenvolvida
a técnica de clonagem terapêutica, é justo que toda a população tenha um clone como
reserva técnica de órgãos? Aqueles que já nascerem com problemas não podem fazê-lo,
pois o clone também teria problemas, mas não seriam esses com predisposições e
doenças genéticas os que mais seriam favorecidos com o transplante de órgãos obtidos a
partir de células-tronco. Para confundir um pouco mais, estudos de há poucos anos
mostram que pâncreas transplantados a pacientes diabéticos também desenvolveram
diabetes, após 11anos, em 100% dos casos. Com órgãos fabricados a partir da reserva de
um embrião clonado teriam destino diferente? Infelizmente, creio que a resposta ainda é
não. Continua aberta a caixa de Pandora, dela saindo todas as pragas e males que o homem
poderia experimentar. Todavia, lembra-nos a Mitologia que a última coisa a sair da caixa
que trazia a bela Pandora era a Esperança. Apesar de todos os males, de todas as pragas,
deveria por último dali sair um sentimento de renovação, mostrando que os deuses do
Olimpo não condenaram perpetuamente a humanidade e que o mito de Pandora talvez seja o
mito da ciência moderna. Para nós, essa Esperança tem nome, pderíamos chamá-la de
Consolador, sem que carreguemos o rótulo religioso, mas ampliando sua perspectiva a todos
os movimentos de regeneração surgidos na Terra, desde o final do século XIX. Cabe à
Ciência Espírita o estudo do Princípio Espiritual e sua relação com o Mundo
Espiritual, sendo a mediunidade um instrumento para se alcançar esse fim. Assim nos diz
Allan Kardec em A Gênese, ao tratar da aliança da ciência material com a ciência
espírita. Ao distinguir duas ciências, pois utilizam elas meios, materiais e métodos
totalmente diferentes, não quis Allan Kardec separá-las, mas vislumbrava a união dessas
fontes de saber, que trariam ao homem não somente o conhecimento de si mesmo enquanto ser
biológico, mas de suas origens, sua destinação final, seu real objetivo na Terra. O
Codificador percebeu que a Ciência teria um limite, que não avançaria além das leis
materiais e a aliança com a Ciência Espírita, que trata do que está além da matéria,
seria a instrumentação que propiciaria o conhecimento pleno e útil ao homem. Mas a tão
esperada aliança entre as ciências espírita e material não ocorreu. Especificamente na
questão da clonagem, que causa espanto a muitos, como se relaciona o princípio
espiritual com o corpo que se forma? Existe total identidade entre clone e doador? O que
transmitem os genes, realmente? A idéia que transmitimos pelo sangue características
não apenas do corpo, mas também as características da alma, sempre esteve presente
entre os homens e passou a se fazer mais forte desde o final do século XIX, reforçado
pelo com a Ciência, a mãe de todas as descobertas que impulsionaram o homem ao auge
conquistado no século XX e ainda hoje desfrutado. O romance do genial Charles Dickens,
chamado Oliver Twist é exemplar modelo dessa idéia.
O primeiro
encontro de Oliver Twist e o pequeno trapaceiro Jack
Dawkins numa rua de Londres mostra o contraste entre eles. Oliver,
filho de nobre donzela, deixado órfão em uma instituição, apesar de
criado sem qualquer requinte de educação, longe das finezas da corte,
e, ressalta o autor, sem qualquer manifestação de amor, tem a postura
digna, a face fina, de nariz afilado, cabelos louros e cacheados e,
muito mais, a inata postura nobre, não arrogante, porém recheada pela
honestidade, pelo brio do caráter, pela força do espírito. O jovem
menino de rua, ao contrário, tem a face grosseira, nariz achatado, como
qualquer menino de rua. O romance mostra que Oliver, em sua jornada ao encontro de suas
origens, tem essa postura nobre herdada pelas características de seu sangue, pois é
nobre como os pais, que transmitiram a ele esse poder, o poder da natureza, contra a
natureza. A idéia que transmitimos características muito além de físicas, mas
morais, através de nosso sangue persiste ainda hoje, mas já não chamamos mais de sangue
nobre, mas, talvez, de genes nobres.
Existe um estudo onde o caule de uma planta mãe foi dividido em três porções e cada uma dessas partes plantadas em altitudes diferentes. Essas plantas eram clones da planta original, que serviu de modelo de comparação. A depender da altitude, as plantas reagiam de modo diferente, gerando plantas outras distintas em maior ou menor intensidade em relação à matriz.
Outro ponto de estudo interessantíssimo é o da evolução dos
rinocerontes. Temos dois tipos de rinocerontes, que surgiram no mesmo período
cronológico, um na África, que tem dois chifres no nariz, outro na Índia, que tem apena
um pequeno chifre em seu nariz. Partiram da mesma matriz e não se explica a diferença
entre eles por alterações em seus genes. O que está além dos genes e nos toca
diretamente o sentido, chama-se fenótipo. Por fenótipo podemos descrever todas as
palpáveis, mensuráveis do ser vivo, as plantas geneticamente idênticas têm fenótipos
distintos, o mesmo se dá com os rinocerontes. O que faz a diferença de resultados entre
o que seria esperado para determinado genótipo e o fenótipo efetivamente encontrado é
chamado pela ciência de normas de reação.
Essas
normas de reação são as alternativas de resultados oferecidos ao genótipo, que podem
ser totalmente distinto do esperado. Se ainda não se pode descrever os fatores
responsáveis pelas normas de reação que interferem no genótipo para a formação de
fenótipos (seres!) distintos, permitam-nos especular, vamos buscar no
Princípio Espiritual, objeto da Ciência Espírita, a causa! Ao campo mental das
células, que já é um fator a determinar normas de reação distintas, sobrepõe-se o
campo mental do espírito, expresso através do perispírito que, ao reencarnar, impõe
sua programação própria, sua identidade. Esse ser complexo, descrito como energético
por partilhar de leis sutis e interferir nas leis biológicas que regem o corpo físico,
influenciado por essas leis enquanto reencarnado e no instante mais ou menos longo da
desencarnação, serve de molde, não de cópia, para comportamentos celulares únicos, no
campo hoje limitado da genética. Os estudos do Dr. Ian Stevenson, principalmente seu
último livro, chamado A Biologia em Face da Reencarnação, mostram a ocorrência de
marcas de nascença, que ocorrem no ser reencarnante sem substrato genético, relacionando
com eventos que geraram a morte traumática do ser, em reencarnação imediatamente
anterior. O Dr. Ian Stevenson publicou o trabalho com o peso de um autor consagrado no
meio científico, respeitado pela seriedade de seus trabalhos, ocupando dois volumes de
obra extensamente documentada.
Mais que fatores genéticos a influenciar nos resultados do fenótipo,
existem características humanas como a linguagem, o comportamento, as emoções, que não
são transmitidas geneticamente. O clone de um
brasileiro criado no Japão, falará japonês, pois a linguagem não é
transmitida pelos genes. Sua capacidade mental será única e poderá ser totalmente
distinta de seu molde, pois as sinapses cerebrais não
obedecem modelos genéticos para seus desenvolvimentos. Mais que isso, o clone poderá
apresentar doenças que jamais serão apresentadas pelo molde, uma vez que alterações
estruturais nos cromossomas são muito plausíveis de ocorrer em clones. O Espírito é
elemento constitutivo da Natureza e anima as formas materiais dos seres vivos,
inicialmente como princípio espiritual, mas nas formas humanas encontram a plenitude do
que entendemos por marcas do Criador em cada criatura, de forma mais vibrante e
desafiadora, somente no homem o princípio espiritual torna-se Espírito com conotação
moral, pois somos seres morais. Se temos a de gerar e aprimorar corpos, não temos a
capacidade de gerar espíritos. A primazia sobre o corpo não é obtida através dos
genes, mas a partir do corpo espiritual que o espírito reencarnante traz. Ainda que
tentemos aliviar doenças, porque algumas doenças são perfeitamente evitáveis, talvez
estejamos distantes da capacidade de aliviarmos sofrimentos. O ser não sofre porque
adoece ou tem a morte próxima.
Esse erro é da visão utilirarista da sociedade ocidental, desenvolvido nos últimos 60 anos. Paradoxalmente, a necessidade de erradicar-se toda forma de,desde as mais legítimas, que dizimam pela miséria vidas inocentes, até as mais bizarras, que visam retardar o envelhecimento e prolongar a vida no corpo, vendem a idéia de que tudo o que é contrário ao bem estar físico é causa de sofrimento. Os espíritos amigos, tratando da medida da felicidade que podemos obter, lembram-nos, em O Livro dos Espíritos, que temos um senso que diz o que é abuso, que são nossos sentidos. A comida excessiva, que às vezes gera prazer, é causa de doenças que matam mais que a fome; as emoções obtidas por experiências quase extremas, desequilibram a homeostase; a necessidade de ser feliz, traduzida pelo consumo de bens pouco duráveis, pelas aparências que não enganam a si mesmos, por não viver conforme as próprias convicções, ou não ter qualquer convicção própria, geram a depressão e a demência. Ante as pragas saídas da caixa de Pandora, calmamente espera o Espiritismo sua vez de ser auscutado pelos homens, pois é o hino de esperança a lembrar-nos que nossa pátria verdadeira não se conta entre os limites do mundo físico, que somos essencialmente espíritos, que nossos corpos são sagradas vestes, mas apenas vestes que teremos de despir quanto estiverem rotas e sem serventia.
- Jorge Cecílio Daher Júnior (GO)