Benedicência
E não murmureis, como alguns deles murmuraram, e pereceram
pelo destruidor. Corintios 1,10
Houve um tempo em minha vida, parafraseando Cecília Meireles,
que minha janela abriu-se para uma vida bancária. Nessa época aprendi muitas coisas e
vali-me bastante, da disciplina que me foi imposta, por força das normas regulamentares
da instituição. Eu trabalhava no setor de Cadastro, e era comum as empresas nos
procurarem para solicitar , uma ou outra informação, deste ou de outro cliente. A lisura
com que tratávamos o assunto não nos permitia passar por cima das instruções , e
sempre nos esquivávamos dos pedidos dos clientes de forma educada, porém, segura e
taxativa. Certo dia, escutei uma conversa travada ao telefone por um chefe e uma destas
empresas, onde ele ,gentilmente, fornecia informações e naturalmente declinava as que
eram de natureza confidenciais. Ao término do referido telefonema indaguei-o:
- Não é proibido pelas instruções dar informações de cadastro?
Ao que ele jocosamente me respondeu:
- E desde quando é proibido falar bem de alguém?
A resposta me deu muito o que pensar.
Agora , minha janela abre para novos horizontes. Já
não faço mais parte da instituição, mas a lição permaneceu gravada em meus refolhos.
Acostumados que estamos ao vicio do falar mal, dificilmente
nos deparamos com os que estão acostumados a falar bem. E muitas vezes quando o fazemos,
estranhamos a atitude, estereotipando o que estamos ouvindo.
Estamos acostumados com o vício da maledicência. Pessoas
há, que se comprazem em falar mal da vida alheia com riqueza de detalhes, que se divertem
espalhando más notícias e adicionando o fel como tempero
para sua própria interpretação. Quanto mais escabrosa a notícia, mais divertida
se torna a tarefa, pouco importando o sabor amargo Assemelham-se a víboras, que
através da boca destilam veneno...
Nosso Mestre Jesus, assim encarava a maledicência:
Raça de víboras! como podeis vós falar coisas boas, sendo maus? Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca. Mateus, 12,34.
É preciso estarmos vigilantes quanto a esta questão. Devemos
reverter a situação e ao invés de sermos maledicentes cultivarmos o hábito do falar
bem. Não só o falar bem chancelado pela norma culta do português, e nem a bajulação
servil dos que tendem tirar vantagem da situação, mas o falar bem embasado
na conduta de um cristão sincero que realmente apreendeu o que o Mestre quis
falar. Deixando que nossa boca externize o que de melhor existir em nossos corações.
Utilizarmos finalmente em nossas vidas esse vocábulo que à similitude dos grandes
escritores da nossa Língua ousei grafar no título desta coluna Benedicência, que
no final será a faculdade de falar bem de alguém.
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Agnes Henrique Soares Leal (MG)
E-mail: ahleal@uol.com.br